Já falei inúmera vezes da locadora da faculdade aqui. E o quanto eu adoro ela.

Eis que nas últimas vezes que fui lá, na parte da tarde, tem uma pessoa nova trabalhando. Antes era só uma menina de óculos, cujo celular tinha como toque um funk – uma pessoa que não condizia muito com o nível cult da locadora, mas enfim, vamos parar de ser tão preconceituosos. Agora, porém, de tarde tem um moço lá. Fui muito com a cara dele desde a primeira vez, porque estava lendo a contracapa de uns filmes  clássicos que eu gosto muito, e me atendeu super atencioso.

Hoje fui lá pegar os filmes da semana. Estava estressada, com dor de cabeça. Coisas no trabalho caindo dos eixos, um site meu que estava fora do ar sem explicação nenhuma, uma situação terrível que aconteceu comigo na noite anterior… Eu estava uma pilha de nervos.

Entrei lá na locadora e estava tocando uma banda que eu curto. Só tinha o tal atendente lá dentro. Chovia lá fora. Passei pela porta e ele me cumprimentou muito cordial. Ele parecia aborrecido também. Não sei porque, mas fechei a porta da locadora quando entrei – coisa que nunca faço. Ficamos os dois naquele cubículo, com a música rolando, e a chuva batendo no vidro. Fiquei olhando os títulos dos dvds ali, caminhando devagar, com minhas sapatilhas vermelhas e aquele vestido curto de coraçõezinhos, tão inapropriado para dias chuvosos… Senti os olhos dele nas minhas costas. Vocês já sentiram isso? Quando você sabe que tem alguém olhando para você? Bem, os olhos dele quase queimaram minhas costas. Parecia que estava rasgando devagarinho a pele que aparecia pelo vestido, bem na minha tatuagem de dragão medieval.

Me abaixei para ver uns dvds na prateleira mais próxima do chão. Quase cai no chão. Fiquei meio que me equilibrando numa perna só, abaixada, tentando alcançar os videos. Meus dedos tamborilavam em cima das capas dos dvds que eu segurava. Balancei a cabeça ao som da música,  meus cabelos quase encostando no chão, completamente bagunçados do vento. Se tinha uma palavra que me descrevia ali era: bagunçada. E completamente ciente dos olhos negros que me acompanhavam pela sala.

Senti ele se mexer atrás de mim. Foi até as caixas de som e aumentou o volume da música. Olhei para trás e nossos olhos se cruzaram. Ele voltou para trás do balcão e eu voltei a olhar os dvds.

De repente senti uma paz. Queria ficar ali a tarde inteira ouvindo Iron Maiden e sentindo os olhos dele passeando pelo meu vestido. Queria ficar um tempão ali me fazendo de abobada, escolhendo filmes até cansar, ouvindo a água caindo lá fora, abafada pela música lá dentro.

Levei os filmes para o balcão. Ele gaguejou para falar o dia que eu teria que devolver. Eu não conseguia olha-lo direto nos olhos. Mas queria ficar ali com ele. Tinha um cheiro bom de coisa velha guardada, meio doce, misturado com algum cheiro refrescante. Pós-barba? Desodorante? Ele era baixinho, tinha mãos de guitarrista.

Eu disfarcei, olhei para cima, olhei para baixo. Ele digitou meu código no computador, me deu um papel para assinar. E eu evitando contato visual. Uma grande batalha, isso sim.

Oitenta por cento deve ser coisa da minha cabeça, claro. Mas como eu apreciei aqueles minutos na locadora hoje, sabe? Me pareceu melhor do que qualquer noite avassaladora que eu tenha passado entre quatro paredes.

Foi aí que eu senti que minha sede agora não é física. É emotiva.

Tenho que agradeecer o cara da locadora pelo clima que eu inventei na minha cabeça maluca para gente. Pela calmaria que encontrei ali, sentido seu cheiro. Coisa de momento.

minha vida é cheia disso.

4 comments

  1. Juliana · December 8, 2010

    Isso é muito a minha cara, não sei vc mas pelo que me lembro todos os caras que gostei foi por causa da minha fértil imaginação nem chegava a conhecê-los pessoalmente, e quando já estava completamente convencida que o cara era legal, ia lá conversar e putz, nada a ver, nem um pingo de emoção, o último cara que “criei” na realidade era um mala machista e de perto tinha varias espinhas e dentes tortos e amarelos…sem mentira só os olhos verdes deles que se salvavam, que na verdade foi a ênfase da minha poesia…
    bjs

    • garotacocacola · December 8, 2010

      É. Eu tenho esse problema também!

  2. Juliana · December 8, 2010

    Isso é muito a minha cara, não sei vc mas pelo que me lembro todos os caras que gostei foi por causa da minha fértil imaginação nem chegava a conhecê-los pessoalmente, e quando já estava completamente convencida que o cara era legal, ia lá conversar e putz, nada a ver, nem um pingo de emoção, o último cara que “criei” na realidade era um mala machista e de perto tinha varias espinhas e dentes tortos e amarelos…sem mentira só os olhos verdes deles que se salvavam, que na verdade foi a ênfase da minha poesia…
    bjs

    • garotacocacola · December 8, 2010

      É. Eu tenho esse problema também!