A porta da sacada ficou fechada, o ventilador ficou desligado, a cama permaneceu arrumada. Porque certo alguém nunca mais virá aqui.

O cheiro do ar é estável e seco. Porque a gente nunca mais vai impregnar o ar com aquele cheiro úmido tão característico.

A garrafa de água gelada na geladeira permanece intocada. Porque nós não a buscamos mais ofegantes e suados.

O meu cabelo conserva o encanto do penteado bem-feito. Porque ninguém veio bagunçá-lo despropositalmente.

O porta-incensos está vazio. Porque certo alguém não virá mais enchê-lo.

O celular não exibe nenhuma mensagem não lida, nenhuma chamada perdida. Porque certo alguém apagou meu número da agenda.

Os olhos estão brilhantes de ternura e vivacidade. Porque certo alguém não provocou mais lágrimas de cíumes neles.

O corpo está em fogo, mas o coração está calmo. Porque  certo alguém está longe.

A mente permanece serena. Porque a gente não se preocupa mais um com o outro daquele jeito frenético.

A alma se perde em vazios de cômodos arrumados, que antigamente ficavam tão bagunçados com a nossa explosiva presença, com a nossa brasa. O coração se confunde com o alívio que a mente se deu com a distância. Um peso que se perdeu na enchente de tranquilidade e falta de movimento. Eu e tu. Nós. Era bom e era ruim. Agora permanece uma lembrança maravilhosa e péssima. Uma sensação de vontade e imobilidade.  Anestesia. Tudo agora mudou – o que antes era ruim, ficou bom; o que era bom, ficou ruim. É saudade do cheiro e do toque, mas nojo dos gritos e brigas.

Até hoje não sei se é graças a deus, ou que pena que foi-se. Mas espero que ainda pense que o odeio.