sublimes romances de esquina

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Li um artigo muito bom que discorre sobre o que é ou o que representa o eterno e o sublime na filosofia (do último śeculo), ao mesmo tempo que discutia com um amigo sobre a mais nova bandeira dos jovens de 20/30 anos: a cultura da obrigatoriedade em sermos felizes sozinhos. Fiquei um pouco na defensiva enquanto os argumentos insossos do Sartre eram discutidos através de citações que nossos amigos postavam em seus murais do Facebook. Afinal, qual é o problema em se sentir mal por estar só?
Nós vemos o tempo inteiro nos filmes, nas músicas, histórias de felicidade compartilhada entre pessoas. Dificilmente aprendemos desde novos a como agir quando estamos completamente sós na vida. E com o śeculo XXI essa idéia de intensificou, e passou a ser vendida para mentes jovens com o mesmo entusiasmo que enfiam o comércio de pequenas refeições congeladas para solteiros que moram sozinhos. E as pessoas se botam na obrigação de mostrarem que estão satisfeitas consigo mesmas o tempo inteiro; fotos de refeições solitárias no Instagram, de estantes de livros solitárias, uma conta no Netflix, competição online para ver quem anda correndo mais no Nike+. Solidão compartilhada. É uma cobrança excessiva.

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Eu refleti muito sobre minha facilidade incrível de sempre me virar bem sozinha e nunca me sentir mal com isso, ao  mesmo tempo que sempre vivo uma leve pressão social para que isso , que normalmente flui naturalmente, fosse algo que simbolizasse um sucesso extremo. E não é assim. É apenas uma forma de viver. E eu nunca sei bem a diferença entre o só que eles falam tanto por aí: seria o só de morar em um lugar sem mais ninguém ou o só de solteiro, sem companheiro ou companheira?

Sobre essa última sentença, eu vim pensando desde ontem. Pensando na possibilidade de voltar a esse patamar. Mas não é como antes, quanod eu precisei ficar e estar solteira por uns anos. Eu já aprendi o que se deve aprender com isso, é essa a sensaçào. E sabe como eu entendi isso? Porque eu notei que não me importaria de estar nesse status novamente. É normal. É natural. A gente nasce e morre sozinho. Mesmo se você tiver um irmão gêmeo, os dois não vão nascer no mesmo minuto.

Muitas pessoas vivem sós e desesperadas em encontrar alguém para dividir os seus dias, a sua vida. É normal, não há nada de errado nisso. As pessoas gostam de companhia.

A vida não nos oferece nada, não nos dá garantia
alguma e não nos pergunta por preferências. O escritor Alejandro Jodorowsky aconselha: “Não busques,permite que te encontrem.
Não peças para ser amado, ame sem limites. Se queres vencer, não lute consigo mesmo.
Padilha, Thais.-

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Eu já passei por tantas desilusões amorosas que já não sei nem contar mais. Minto, até sei. Posso elencar e classificar conforme as intensidades, e posso afirmar que nada se parece com o que eu vivi da última vez. Tão recente. Achei que aquilo que me assustaria seria o medo de estar sozinha novamente, e ter que encarar aquela expectativa constante de encontrar um alguém que encaixe, e que faça tudo ganhar sentido novamente, de súbito. Isso existe, sim. E pode acontecer mais de uma vez. E na vida de uma pessoa solitária você pode ter inúmeras recordacões de inúmeras situações de companhia. Mas o medo que me assolou dessa vez foi a perda. Eu tenho certeza absoluta, tanto quanto que chove em São Paulo o mês de fevereiro inteiro, que mais cedo ou mais tarde eu posso encontrar mais uma ou duas pessoas fantásticas ao longo da vida que vão marcar minha alma como outras já fizeram de um modo tão divino.
O problema dessa vez foi lidar com o eterno e não o sublime que determinou todas as outras situações. Como o artigo que li hoje explica, sublime são as primaveras que enxergamos entre as gotas de orvalho de um rigoroso inverno. O sublime foi a fatia de bolo de chocolate que eu comi hoje, durante um dia de melancolia e tristeza extrema. A única tristeza que foi pior do que a de hoje e de ontem, foram as tristezas que senti quando sentia cheiro de cravo nos enterros de pessoas que amei muito. O eterno é meu sentimento de amor e devoção por todos aqueles que me fazem bem. Isso nunca mudou, e eu consigo ver pessoas indo e vindo, buscando e retornando, esse sentimento de amor à vida que é inabalável dentro de mim.

Nunca procurei amores. Eles sempre vieram ao meu encontro como um baque surdo, um encontrão. Porém, eles nunca aconteceram sozinhos. Eu os via. As vezes eram platônicos e aconteciam da primeira vez que eu olhava a pessoa, e não importava quem ela fosse, sua face me contava sua história e informações suficientes para que eu soubesse que ali eu encontraria um destino e um porto seguro. Sempre breve, sempre sublime. Outra vezes o amor aconteceu no dia a dia. Uma palavra, o jeito de passar a mão do pescoço, a voz, a forma como pronunciava uma certa palavra. Me apaixonei tantas vezes. Nem todas elas precisavam ter acontecido. Nem mesmo metade delas deve ter ido parar na alcova. Eu, na situação de pessoa solitária e eterna em meu amor pelas coisas simples e breves, cultivei romances de dez segundos em livrarias, de cinco minutos em cafés, de duas horas em festas. Com saliva, sem saliva. Romances inteiros que duraram uma cruzada de pernas. Porém, quando havia a oportunidade, nunca deixei de ir atrás de quem eu queria. Nunca. E todas as vezes deram certo. Lembro de ter tido fogo negado apenas uma vez na vida, e com uma explicação muito bem colocada e delicada. Muitas vezes questionaram minha fidelidade a namorados tradicionais, e elas existiram, sim. Sempre cumpri meus acordos de afeto e carinho. Isso nunca me impediu de continuar tendo inúmeros amores de esquina. Um fogo rápido, que apaga como um fósforo riscado úmido, que não faz a fogueira que arde ao lado parar de brilhar. E morre ali. Não fere ninguém, não aborrece, não dura mais do que uma simples… sublimação.

Eu queria escrever toda a dor da perda que tenho sentido, sem saber se ela vai ocorrer ou não. Queria que as pessoas fossem simples como eu. Mas isso é pretensão. Sartre jamais aprovaria. Seja feliz só.
Eu sei, eu já sou.

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O que aconteceu dessa vez foi a realização de quem não importa a dor que eu sinta agora e sim depois. Acho que o Bukowski sabia muito sobre isso, apesar de toda a sujeira imnente do amor que ele denunciava, mas nunca desistia de se apaixonar. Pela mesma pessoa, por outras. O amor em geral deve ser uma porção de primaveras desabrochadas no meio do frio da geada da vida.

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