quatro anos de boa sem carne

Aí, quatro anos de vegetarianismo – e eu ainda não virei vegana. Nem são 8 da manhã e eu já li três comentários revoltados no meu blog sobre vegetarianismo, que está sem post atualizado há pelo menos dois anos, me acusando de não saber nada sobre especismo. É, naquela época, eu sabia bem pouco sobre especismo, e ainda hoje eu tenho um tanto de coisas para aprender. Desde 2009 eu questiono meu vegetarianismo todos os dias, e todos os dias a resposta vem sendo: “moço, tem alguma coisa sem carne no cardápio?”. Pode ser que eu acorde amanhã e mude de ideia, pode ser que daqui 10 anos eu tenha alguma complicação de saúde, seja internada, e me forcem a comer carne. Pode ser, pode ser. Mas agora, nesse momento, eu prefiro me abster do consumo de carne. Eu venho doando sangue periodicamente desde então – essa maldita culpa cristã por ter sangue do tipo O -, e nunca tive nenhum quadro de anemia ou algo parecido. Salvo um “quase”colesterol no limite do aceitável, há muito tempo.

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Pelo menos uma vez por mês tem uma pessoa que eu recém conheci, ou um amigo com quem nunca conversei sobre, que faz a inexorável indagação: por que você é vegetariana? Eu nunca dou a mesma resposta, porque minha razão muda todos os dias. Mas eu gosto quando alguma outra pessoa, que me conhece a mais tempo, responde por mim. Geralmente são dois tipos de resposta: “é por ideologia!” ou “ela tem pena dos bichinhos” (essa última sempre vem acompanhada de um biquinho, um olhar amável para a minha pessoa, ou um tapinha nas minhas costas). Nenhuma resposta está errada, acontece é que eu acrescento motivos ao longo dos anos, conforme eu vou lendo mais sobre o assunto – como qualquer outra coisa na vida da qual você se importe. Daí que, para comemorar esses quatro anos sem carne, e milhares de motivos para continuar sem, eu vou listar algumas perguntas e afirmações que sempre me jogam na cara, e tentar responder ou explicar os motivos de não haver resposta para algumas delas.

Temos pastel de presunto e queijo.
As pessoas acham que presunto vem de onde? Da árvore? Claro que eu não falo isso quando me oferecem esse tipo de coisa, eu sorrio – fazendo “a linda” – e digo “Mas presunto também é carne. Hehe.. Tem um só de queijo?”

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Por que você não come carne? Você é gaúcha!
Eu não como carne, acima de tudo, porque os bichos tem uma vida miserável e muito muito muito dolorida nos centros de abate. Veja bem, eu nunca disse que não gostava. Eu amo bacon. Eu adoro salmão do sushi. Meu prato preferido sempre foi coração de galinha assado em churrasco – bem comum no Rio Grande do Sul. Nunca esqueci o sabor dessas coisas. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, eu não sofro nem um pouco quando vejo pessoas as comendo na minha frente. Eu não consigo mais comer essas coisas sabendo de onde elas vem, apenas isso.
Normalmente eu faço uma analogia bem forte para algumas pessoas a respeito disso, quando insistem muito. E, coincidentemente, essas pessoas insistentes sempre são homens brancos e heteros, metidos a machão. Eu costumo confrontá-los com o seguinte: “Moço, imagina que você encontrou a mulher dos seus sonhos, fisicamente falando, aquela com que você sempre quis transar, e você percebe que ela é uma prostituta. E você tem exatamente a grana que custa o serviço dela, ali, na sua mão. Antes de transar com ela, você descobre que ela foi traficada bem novinha, arrancada da sua família à força, e vem sendo escravizada no mundo da prostituição desde criança. Eu te pergunto: você come?”. Normalmente as pessoas ficam me olhando como se eu fosse louca. Mas eu estou as achando loucas há muito mais tempo, pode ter certeza.

É chocante? É. Mas é o mais perto que eu consigo chegar para fazer alguém entender a minha lógica, quando todos os argumentos e exibição de filmes de tortura com animais não foram o suficiente para pessoa largar do meu pé. E veja bem: não é nem que eu saio por aí tentando convencer as pessoas a pararem de comer carne, é só que tem gente que se incomoda por eu não estar comendo. Quem é o mau educado ali?

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 Mas nem peixe?

Nem peixe. Eles também são animais, eles também sofrem, etc etc. Inclusive, a pesca dos peixes mais gostosos e mais consumidos é aquela que mais acaba com a fauna marinha – você sabia que milhares de outras espécies de animais marinhos são pegas naquelas redes de arrasto (principal meio para pescar sardinha, por exemplo) e morrem esmagadas, tendo seus corpos partidos em vários pedaços através das redes de pesca, por causa do peso exercido pelos outros animais que estão em cima, sufocando sem água para respirar? Então. Só para começar.
E digo mais: eu tenho ódio infinito sobre as pessoas que comem apenas peixe e se dizem vegetarianas. Amigos, vocês não são vegetarianos. E vocês prestam um enorme deserviço aos vegetarianos, porque é por culpa de vocês que às vezes nós somos servidos de frutos do mar, sem aviso prévio, depois de termos avisado alguém não comemos carne.

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Você não comer carne não faz com que os animais parem de ser mortos.

Sério? Nossa, eu achei que eu fosse tão importante que só pelo fato de eu ser vegetariana o mundo inteiro seria também!
Então, falando sério. Eu sei de muita coisa por aí, sabe. Eu sei que o fato de eu não pegar numa arma e sair matando quem eu não gosto por aí, também não vai fazer com que o homicídio seja extinguido do mundo. E por acaso, por causa disso, eu tenho uma arma e saio matando geral? Não, né. Eu sei que se eu não for corrupta, os políticos automaticamente não vão deixar de ser corruptos. Mas eu estou aí desviando dinheiro pelo mundo? Não. Sabe, vegetarianismo é uma questão extremamente cultural, embora muitas pessoas não entendam o que isso quer dizer. Prometo que vou escrever exclusivamente sobre isso em um próximo post, porque o assunto é grande.

Qual é o propósito de comer carne, mas continuar consumindo produtos de origem animal?

Tá aí algo que eu ainda não sei responder nem para mim mesma. Eu acredito que o veganismo é o caminho, sim. E eu tento ao máximo seguir a premissa até certo ponto que eu acredito ser saudável para mim, por enquanto. Ainda não virei inteiramente adepta porque eu sinto cheiro de que vou enlouquecer muito – costumo entrar nas coisas de cabeça – e venho me preparando espiritualmente para isso. Acho que uma hora eu viro vegana, só não sei se daqui dois meses ou daqui cinco anos. Mas uma hora, eu sei que essa chave vira.
Às vezes eu sinto que ser vegetariano é como dizer que é católico não-praticante. Tipo, isso não existe, é uma enganação. Mas enfim, é o que temos para hoje. Obs: não, eu não sou católica! Peloamor.

Como você faz quando não tem opção?

Não como nada.

Crianças na rua são mais importantes do que animais.

(Péeee! Especismo detected!) Nessas horas eu costumo perguntar  “O que você tem feito pelas crianças abandonadas na rua? Conte-me mais!”.

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 Eu li em uma revista que alfaces também sentem dor.

As pessoas que se preocupam com a tal dor das plantas deveriam ser as primeiras a pararem de consumir carne, visto que hoje em dia, as maiores plantações existem para surprir a necessidade de alimentação dos grandes números de animais que estão esperando para ser abatidos. Acho que essas pessoas deveriam, inclusive, fazer protestos dentro dos supermercados para salvar mais alfaces de serem colhidas. E deveriam ser adeptas daquelas doutrinas alimentares em que os seres humanos conseguem se alimentar de luz. De tão iluminadas que essas pessoas devem ser, por se compadecerem da dor das plantinhas. Que dó!

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Enfim, para quem ficou afim de conhecer mais sobre vegetarianismo, eu recomendo fortemente um livro, Comer Animais, do Jonathan Safran Foer. Lá mostra as duas faces da moeda, de um jeito bem sincero e simpático. É o livro que mais releio, disparado.

 

 

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