aquele em que vi a letra escarlate em mim

Nunca foi fácil dizer para as pessoas que você é feminista. Uma vez li o livro Depois daquela Viagem, e em algum trecho a autora, portadora do vírus da AIDS, no auge do seu sofrimento por não contar para ninguém sobre sua doença-tabu, olha para sua amiga jamaicana, negra, com certo ar de ressentimento. E ela pensa (mais ou menos assim): “gostaria que o preconceito que as pessoas tem por mim estivesse estampado na minha pele, para todos verem”. Ela não queria dizer com todas as letras que era aidética porque havia (há?) um preconceito referente aquilo. As pessoas a tratariam diferente depois que ela contasse. Ela sofreria o tratamento diferenciado ao tentar um emprego ou almoçar na casa de conhecidos. Assim como todas as pessoas negras sabem, desde crianças, que existe um preconceito velado – em menor ou maior escala, e dependendo do lugar – contra elas. Mesmo que sutil. A diferença é que elas não podem esconder a cor da sua pele, e no caso da menina com aids, ela poderia escolher se contava ou não. Ela poderia escolher se lidava com a carga social e psicológica com que as pessoas reagiriam e a tratariam. Ela teria que encarar o mundo de volta com sua letra escarlate estampada no seu peito.
Atualmente, minha letra escarlate é ser mulher. Feminista.

4 comments

  1. Charles · June 6, 2012

    É, mas também há pessoas que te admiram como és. Siga firme, garota!

  2. Charles · June 6, 2012

    É, mas também há pessoas que te admiram como és. Siga firme, garota!

  3. Amigo · June 6, 2012

    Por pior que seja conviver com a AIDS (não é fácil mas não é impossível, acredite), realmente tem esta vantagem de que podemos esconder a nossa condição do resto da sociedade e, assim, escapar ilesos do preconceito. Mas, por outro lado, não é nem um pouco fácil conviver com a eterna dúvida de que será que seus amigos continuariam te tratando igual? Será que meu chefe e meus colegas de trabalho continuariam me tratando igual?
    Talvez o medo do preconceito iminente, de ter que encarar estas respostas, seja tão ruim quanto viver o preconceito na pele.
    A moral da história é que preconceito é uma m*, sempre.

  4. Amigo · June 6, 2012

    Por pior que seja conviver com a AIDS (não é fácil mas não é impossível, acredite), realmente tem esta vantagem de que podemos esconder a nossa condição do resto da sociedade e, assim, escapar ilesos do preconceito. Mas, por outro lado, não é nem um pouco fácil conviver com a eterna dúvida de que será que seus amigos continuariam te tratando igual? Será que meu chefe e meus colegas de trabalho continuariam me tratando igual?
    Talvez o medo do preconceito iminente, de ter que encarar estas respostas, seja tão ruim quanto viver o preconceito na pele.
    A moral da história é que preconceito é uma m*, sempre.