aquele sobre humor

Todo mundo fala de humor, consome humor, faz humor, endossa humor. Mas poucas pessoas sabem o que é humor.

No Brasil de hoje o humor é usado principalmente como forma de relaxar, de fugir da rotina, de obter um riso no meio do dia. O humor já foi muito usado para curar, e ainda hoje tem essa função – lembram dos Doutores do Riso? -, e também tem a função de fazer as pessoas rirem de si mesmas. Mas, principamente, dos outros. Perguntando sobre humor e discutindo sobre humor com amigos e conhecidos, uma coisa é unanimidade: todos concordam que o humor sempre tem um alvo. O humor se baseia em tirar sarro de alguém para obter gargalhadas, e assim fazer o corpo e a mente relaxarem. Mas aí estamos tomando como “humor” apenas piadas, essas sim, quase sempre tem um alvo. Ou não.

Lembro nitidamente de ler o Guia Mochileiro das Galáxias e rir de modo épico de uma piada que falava sobre a vida inteligente no universo. Era um trecho do livro que dizia que, como na regra matemática em que colocamos um número finito sendo dividido pelo infinito sempre obteremos zero, o autor falou que, logo, como temos o conhecimento de um número determinado de planetas com vida inteligente no universo (um número finito!), e o tamanho do universo é infinito, nós não temos vida inteligente no planeta. Na época eu estava no início da faculdade e fazendo a disciplina de Cálculo I, então a piada fez muito sentido para mim. Algumas pessoas lendo esse texto jamais entenderão a piada, logo, concluímos que piada também tem contexto.

Pensando na questão do alvo e na questão do contexto, tentei aplicar o raciocínio à piadas sobre loiras. Não cheguei a conclusão alguma. Não entendo em qual momento da História alguém concluiu que loiras são burras, e a piada virou um clássico. Portugueses eu entendo, pois eles tem uma lógica de fala e pensamento completamente diferente dos brasileiros; portugueses levam as setenças ao pé da letra, e às vezes essas situações nos parecem cômicas. Me botando no lugar do português, talvez me sentisse ofendida. Ora pois, se fulaninho diz que eu sou burra só porque nasci em Portugal! Não faz sentido. Bom, para os brasileiros faz. É um estereótipo.  Agora, me botando no lugar da loira, talvez também me sentisse ofendida. Só porque nasci loira, ou resolvi pintar o cabelo de loiro, isso determina que sou intelectualmente menos capaz? Onde está escrito? E aí, para o mundo inteiro faz sentido. Mas sentido como? Não tem fundamento. Não tem contexto. É estereotipar por estereotipar.

Há muito tempo atrás, as pessoas chamavam ‘humor’ qualquer coisa líquida, úmida. É esse o sentido original da palavra em latim. Naquele mesmo tempo, se relacionava a questão dos fluídos humanos diretamente com seu estado de espírito, e logo foi-se aplicando a palavra para designar o ânimo da pessoa. Depois, usaram o termo humor para se referir a extravagâncias e coisas cômicas. E aí, temos o sentido da palavra hoje.

Sendo assim, é de se concluir que faz todo o sentido que o humor aqui no Brasil seja um artifício que as pessoas usam para desestressar, relaxar e se sentirem mais leves.

Mas a que custo?

Humor e piada andam lado a lado. O modo mais recente e simbólico, popular, de se consumir piada hoje é através do stand-up. Comediantes ganham muito bem hoje no Brasil para parar em pé num palquinho, com um microfone, e contar histórias engraçadas. Ou, fazer o famoso ‘cagar-regras’ para o público. Que ri. Relaxa. Desestressa.

As custas de um alvo, obviamente.

Piadas de gordo, por exemplo, em um contexto de que hoje o bom é ser magro, e o próprio mundo é construído para magros, se fazem válidas por ilustrar situações cômicas de pessoas obesas tentando usar, por exemplo, uma roleta/catraca de ônibus. Mas esse mesmo humor aceitável com gordos deve ter seu raciocínio estendido para um âmbito de piadas com deficientes físicos, por exemplo? Pelo mesmo motivo? Pessoas nascem com deficiências físicas e pessoas se tornam deficientes após acidentes; nós sabemos. Assim como pessoas obesas se tornam ao longo da vida por qualquer motivo, ou nascem com uma tendência a serem gordinhas – e não é nada legal rechaçá-las por causa disso, já não basta o bullying do dia a dia. Essas pessoas tem muito trabalho para se adaptar ao mundo dos magros e dos ‘normais’. São olhadas de esguelha na rua. Será que é legal usar de suas dificuldades para relaxarmos depois de um dia cansativo de trabalho? Sabe, essas pessoas também trabalham, também, tem vida, qual humor elas vão consumir para desestressar da sua vida altamente difícil? Eu acredito que rir de si mesmo pode ser problemático, sim. Até porque ‘rir de si mesmo’ é uma característica bem brasileira, de um povo explorado, em recente ascendência econômica, que ainda se submete aos padrões europeus e norte-americanos do que seria bom para si. Que ainda usa a suposta supremacia desses povos como espelho – frustrando-se constantemente. Rir de si mesmo não é legal nesse contexto. Rir de si mesmo é tropeçar na rua e dar risada (fazer o quê? Tropeçou mesmo, vai acabar o dia por isso?); rir de si mesmo é ver o cartão de crédito estourar e pensar que não vai conseguir comprar aqueles tênis novos ainda, porque se descontrolou nas contas. Mas rir de si mesmo não é, e nem pode ser, pensar que é engraçado tirarem sarro de preconceito, de um crime, de algo que vai de encontro com a sua integridade.

Por isso que eu acho que piadas com negros, mulheres, estupro, etnias, etc, são problemáticas. E quem ganha a vida em cima de um palco fazendo humor tem uma responsabilidade social que a população ainda não entende.

Ou não quer entender.

 

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