Daí que sábado eu fui a uma festa à fantasia. Fiquei sabendo sobre a fantasia em cima da hora, ou seja, tive que apelar para a fantasia de movimento flower power, que em outros termos podemos chamar de fantasia de hippie. Tive uma fase rebelde dos 11 aos 14 anos, e só andava de sandália de couro, saias longas coloridas e tranças nos cabelos. Essa fase rebelde nunca me rendeu nada de útil ou significativo na vida, mas é o que me salva nessas situações de festas a fantasias em que eu não preparo uma fantasia previamente, e acabo apelando para minhas roupas antigas afim de ir na festa vestida de Janis Joplin. Ué, hoje em dia é moda se fantasiar de Amy Winehouse, ou de Marilyn Monroe; acho mais digno meu visual junkie de Janis, oras. Muito original.

Daí que acabei levando a caracterização de hippie à sério demais – inclusive substituí o isqueiro por uma caixa de fósforo (achei mais roots) – e juntei o consumo de substâncias ilícitas com o meu costumeiro consumo de alcóol em forma de Skol, e fiquei bem tonta. OU SEJA: desde os 17 anos que eu não ficava tão bêbada.

Daí que estava sentada na sala da casa do aniversariante, pessoas à minha volta conversando, casais se beijando, galera tirando foto das fantasias, o pai do cara mexendo no som ao meu lado… e de repente achei de muito bom tom enfiar o dedo na garganta, vomitar, pedir um pano, limpar, e continuar conversando com as pessoas como se nada tivesse acontecido. A cara de WTF da metade dos indivíduos na sala era impagável. Acho que no fim incorporei um jeito Janis Joplin de ser, algo meio esquizofrênico, vai saber.

Então, devido a minha aparente imagem falida e estado de espírito duvidoso, minha amiga achou coerente me levar para casa dela para dormir de uma vez, já que ficar acordada daquele jeito estava começando a fazer as pessoas pensarem que eu era realmente a freak que todo mundo da faculdade sempre pensou. Nunca contestei também, só para constar. E dormi na casa dessa amiga, por fim.

De manhã, acordei pelo meio dia. Lavei a cara, tomei um suco, peguei um ônibus. Desci num parque que sempre tem uma feira de antiguidades domingo, um lugar muito famoso. Tinha que atravessar o tal parque, lotadíssimo, para ir até a outra parada de ônibus pegar a linha que me leva até em casa. Fui andando e andando, e notava que as pessoas me olhavam de um jeito estranho. Umas nem disfarçavam, e outras até arqueavam os sobrancelhas. Muitos ficavam pensativos. Comecei a olhar para mim para ver se eu não tinha sentado em algum chiclete, pisado em algum cocô de cachorro, ou se minha saia não tinha prendido na minha calcinha me deixando com a bunda de fora. Mas, felizmente, nada disso havia acontecido. Porém, olhando para mim mesma para procurar um motivo que justificasse tantos olhares estranhos no parque, notei uma coisa.

Eu ainda estava de fantasia.

De Janis Joplin.

Domingo. Meio-dia. No parque mais movimentado da cidade.

Melhor que isso foi chegar em casa estranhando uma dor excruciante no dedão do pé esquerdo. Tirei a bota e descobri que havia um espinho enorme e preto enfiado na minha unha. E olha… eu sou metida a costureira, e já levei muita agulhada embaixo de unha e sei muito bem porque os russos espetavam pontas de metal nos dedos dos prisioneiros políticos como forma de tortura: porque a dor é insuportável. Agora, eu não faço a mínima idéia de como o bendito espinho foi parar DENTRO da minha unha sem eu ao menos ter sentido. Suspeito que tenha alguma coisa a ver com a bebedeira que se deu antes do vômito da noite anterior.

Minha vida: sempre cheia de mistérios insolúveis.

Espero que ninguém tenha ficado sóbrio o suficiente naquela festa para gravar qualquer vídeo meu. Mas se alguém souber como um espinho foi parar no meu pé, por favor, avise.

 

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