Senta que lá vem a história!

Hoje acordei meio assim, literária. Com vontade de escrever.

Achei no meu armário um pendrive antigão que estava perdido. Muitas músicas boas nele, músicas super vintage e tranquilas. Jimmy Cliff, The Spaniels, The Champs, Barry White, Village People, The Beatles, Amy Winehouse, Chico Buarque, Los Hermanos, Franz Ferdinand, The Foundation, Janis Joplin… 4 GB.

Eis que começa a tocar Only You, do The Platters. Lembrei instântaneamente de ter quinze para dezesseis anos, no verão, estar de bobeira em casa lendo um livro e o telefone tocar. Atendi e começou a tocar essa música. No final, do outro lado da linha, o ‘oi, sou eu‘ de um carinha que morava na praia e que eu tinha tido um casinho no verão anterior. Loiro, alto, lindo, cult, etc. Conhecia ele há muitos anos, e sempre gostara dele bastante, de um jeito meio apaixonado. Ele é uns sete anos mais velho que eu. No ano novo em que eu tinha quatorze anos, não me intimidei por ele ter vinte e um e todas as meninas da praia serem derretidas por ele (incluindo as, meu deus, de vinte anos!), e chamei ele na beira da praia. Disse que eu estava com frio. Ele tirou a camisa branca que ele vestia – reveillon, na época em que todo mundo religiosamente vestia branco – e me estendeu. Eu peguei a ponta da camisa e puxei forte. Ele caiu em cima de mim, eu enlacei meus braços no pescoço dele, e colei minha boca nos lábios dele. Ele me empurrou um pouco e franziu a testa. Eu sorri e puxei ele pra cima de mim e continuei beijando, imitando o jeito que faziam nas novelas e nos filmes – só que eu sabia uma coisa que eles não mostravam no filme; tinha que ter língua. Eu li isso uns dias antes na Capricho e guardei a informação. Afinal, aquele era meu segundo beijo e eu não queria que ele percebesse. A gente passou o verão meio juntinhos, eu ia e voltava da praia para Porto Alegre, e a gente se falava por telefone e pela internet (discada…), e quando eu estava  no litoral, a gente caminhava de mãos dadas na beira da praia.

No dia que ele me ligou e colocou Only You para tocar, eu conversei com ele cordialmente e mandei lembranças. Disse que estava com saudades e toda aquela ladainha. Quando desliguei o telefone, liguei imediatamente para um amigo e contei o que tinha acontecido.

- vanessa, acho que ele gosta de ti…

- gosta nada. ele quer é saber se eu vou aparecer esse verão por lá. porque se eu não aparecer, ele já vai começar a dar em cima de alguém que ele está em vista.

- será? mas ele foi todo romântico contigo. ele até te mandou CARTAS durante o ano.

Era verdade. Ele até tinha falado que Crazy do Aerosmith tinha sido feita para mim.

- mas fabito… eu não acredito nele.

- por quê?

- não sei. ele bonito e tudo mais. talvez eu perca a virgindade com ele, porque assim né… ele mora longe e daí eu não vou precisar ter que ver ele de novo, e se ele abrir o bocão que eu dei para ele, não vai acontecer nada, é só eu não ir mais para praia. ninguém aqui de porto alegre conhece ele. é!!! é isso. vou voltar para lá esse ano e perder a virgindade com ele.

- mas por que com ele?

- por causa disso que eu te falei, oras. e ele é bem mais velho, é uma vantagem, pode me ensinar algumas coisas.

- tu vai para lá só para usar o guri.

- e tu acha que não é isso que ele quer?

Três anos depois deste derradeiro verão, eu voltei para aquela praia. Não encontrei ninguém conhecido. No msn, mensagens offline ditas na calada da madrugada, me exigindo respostas àquela ligação e às cartas lindas, cheias de corações e mimos – que hoje eu atribuiria a uma pessoa de treze anos de idade, fã de Luan Santana.

Ouvindo Only You agora, eu me lembrei desse cidadão e desses fatos. Fiquei pensando como eu poderia ter gostado um dia de uma pessoa tão carente, tão sem noção – alou, o cara de 22 escreve cartas para uma pirralha de 15 que nem peitos tinha e ainda por cima era gordinha -, tão pseudo cult, tão loser. Porque saca só né, nessa época aí do nosso namorico, ele jurava para todo mundo que o destino dele era fazer medicina e ser famoso para caramba. Ser político. Etc. Cinco anos depois, abro o orkut do cidadão, e lá está ele tirando foto ao lado da máquina de xerox onde trabalha, ao lado do pc com tabela do excel aberta, trabalhando de moletom e boné. Vários albúns intitulados “Festas”, no maior estilo vida loka e muitas fotos editadas em algum lugar, com o nome dele escrito no canto da imagem – a foto que mostra a cara dele de óculos escuros olhando para o horizonte, ou com os dois dedos “paz e amor” posando ao lado da boca fazendo biquinho.

Sério, me mato.

Cada coisa por quem a gente se apaixona quando é mais novo.

Graças a deus eu desenvolvi o mínimo senso crítico depois que eu cresci. E às vezes me pergunto se eu não vou pensar coisas desse tipo sobre os caras por quem eu me interesso hoje em dia. Rezo para que não.

O amor é cego, puta-merda. Ainda bem que me dei conta cedinho daquele lá, e foi bem ali, percebendo que o cara só queria me comer, que nascia em mim o protótipo de uma pessoa completamente desligada sobre a relação entre amor e sexo. E olha que ainda era virgem.

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