Fui lá, comprei o triplo de livros a mais do que tinha planejado. Pedi para embrulhar tudo para presente – eu tinha visto o empacotador de longe, e ele tinha aquele cabelo tão lindo. Mandei embrulhar presentes… para mim mesma. Ele lá com a cabeça baixa e os fios negros brilhantes cobrindo o rosto. Daí ele jogou a cabeça para trás e eu vislumbrei os olhos azuis mais brilhantes que já tinha visto na vida. Ele olhou bem fundo nos meus olhos e disse que tinha curtido a minha camiseta. A gente falou “tarantino é meu diretor favorito” na mesma hora,  conversamos sobre filmes e livros que gostávamos em comum. Ele tinha piercings e tatuagens nos ligares que eu mais gosto, e um sorriso matador.

Eu poderia ter pedido o facebook dele, poderia ter dado meu número, poderia ter feito n coisas. Mas aqueles minutos foram tão bons que fiquei com medo de estragar. Joguei um beijinho para ele no ar e fui embora. Melhor guardar a lembrança daqueles olhos lindos, e daquele papo bom, intacta, do que desmanchá-la em possibilidades.

Se um dia eu estiver muito triste, eu volto lá na Livraria Cultura no mesmo horário, e compro mais livros de presente para mim mesma. E vou com uma camiseta com alguma cena de algum filme do Tarantino de novo, claro.

[…]

Duas horas de assunto com o mecânico que me vendeu e ajustou minha bicicleta. Entre eu e ele, nada em comum. Sequer as expectativas de vida. Ele vive de vender e consertar bicicletas, e sequer tem uma. Eu cheguei lá estressada, com mimimis burgueses e ares de madame mandona – a despeito do meu tênis ralado, meu jeans detonado, e meu cabelo bagunçado. Fiz ele tirar todas as bikes para eu experimentar, fiz ele me explicar cada um dos acessórios que eu não conhecia. E ele me respondia sempre sorrindo, sempre querido, sempre tranquilo. Já era quase hora da loja fechar, e ele lá, cheio dos bons humores. Eu tinha tido um dia ruim, de notícias chatas, e tinha ficado na mão no meio do trajeto da minha casa à casa de uma amiga porque tinha caído o freio da outra bike, no meio de uma descida super movimentada. Eu não estava para brincadeira quando entrei na loja para comprar uma bike nova, sendo que a outra tinha só três meses. Estava para matar alguém.

Mas daí eu topei com esse cara. Tão simples, tão gato, tão sem perspectiva. Ele tinha um ‘calor’ próprio, um jeitão humilde, e falava das bikes tão apaixonado… Eu quase comprei uma para ele, eu acho. Ele me olhava tão querido, tão de igual para igual, me ensinava a trocar o pneu da bicicleta sem eu nem ter pedido – porque ele achava importante que eu soubesse, já que ando de bike todos os dias. Quando ele chamou a pessoa superior a ele na hierarquia, para tirar uma dúvida sobre rolamento, e me apresentou para a chefe dele, todo orgulhoso de ela ser uma menina e de entender mais de oficina do que ele, eu achei tão terno, tão tudo. Se ele me pedisse em casamento ali, naquela hora, eu diria sim. Sem piscar.

O shopping tinha fechado, e a loja também, quando a bike ficou pronta. Uma caloi estilosa, com ares de Easy Rider, espelinho, bagageiro, e buzina. Ele botou a Magrela no ombro e foi comigo até a rua. Na despedida, uma hesitação. Eu sorri e agredeci.

Não pela bike, como ele deve ter pensado. Mas por ter me deixado em paz com toda a sua simplicidade, beleza, e carinho pelo seu trabalho. Vou lembrar desse cara para sempre, e eu nem sei o nome dele.

[…]

 

Vivo para guardar esses momentos soltos por aí. A vida é tão mais fácil quando a gente simplifica tudo.

 

2 comments

  1. magnus · September 5, 2011

    estás carente, guria…

  2. magnus · September 5, 2011

    estás carente, guria…