Quando eu tinha doze anos vi o primeiro filme pornô na vida. Estava brincando de batucar com colheres de pau no guarda-roupa da mãe da minha amiga. Ela ligou a tv bem baixinho e me disse “Olha só o que eu descobri!”. E zapt! Sexy Hot.

Ficamos absortas olhando aquilo. Ora enrubescíamos, ora nos olhavamos e ríamos, ora ensaiávamos mudar de canal, essas coisas. Tímidas, mas nem tanto. Era uma coisa que parecia muito errada – estar vendo aquilo -, mas seguíamos assistindo exatamente por isso. A adrenalina era muita. Lembro que era um filme sobre uma casa cheia de mulheres e homens que corrigiam os problemas dos casais que entravam lá. Já na primeira cena, depois da introdução à história, apareciam duas mulheres transando. Foi a maior surpresa para mim. Logo, de cara, a primeira cena de sexo que eu vejo é de duas mulheres! Achei estranho, muito estranho. Mas não fiquei com repulsa como a minha amiga. Eu sabia que existiam lésbicas, porque a minha madrinha tinha duas amigas e desde pequena sempre me disseram que elas eram um casal. Diferente, mas um casal. Só que nunca tinha passado pela minha cabeça que casais homossexuais faziam sexo. Até então, para mim, eles ficavam só nos beijinhos. Como eu era inocente. Depois dessa cena, apareciam casais heteros, fazendo tudo com uma violência sem precedentes. Se eu visse aquelas cenas hoje, daria de ombros. Mas naquela época… Eles estavam praticando modalidades leves de BDSM. Imagina só o nó que deu na minha cabeça.

Desde aquele dia eu evitava pensar em sexo, e pensava em adiar o máximo possível a minha primeira vez. Como as mulheres gritavam muito enquanto faziam aquilo, logo imaginei que doía. O que não se encaixava era o fato de que todos os adultos pareciam gostar de sexo. Mas como, se era tão violento? Eu não entendia.

Eça de Queiroz foi quem me ensinou que sexo poderia ser bom. Me iniciou na descoberta dos prazeres da carne.

Da minha carne, para ser mais sincera.

No ano seguinte, longas tardes passei no meu quarto, num rala e rola literário com o Primo Basílio. Me espantava descobrir que um livro, antigo, de linguagem completamente estranha para mim, escrito em português de Portugal, pudesse me provocar tantas sensações. Lembro com nitidez a descrição do encontro do casal na adega – se não me engano – da casa da moça, no final da adolescência, quando o primo lhe roubava um beijo quente e molhado. Eu apertava uma coxa contra a outra e sentia uma coisa muito boa fazendo aquilo, enquanto lia as descrições detalhadas dos encontros de Luísa e Basílio na casinha que eles alugaram para efetivar o adultério dela. Goles de champagne trocados através de beijos, mãos quentes subindo pelas coxas, voz rouca no pé do ouvido. Meu sangue fervia. Me sentia a própria Luísa.

Depois, li O Canto da Sereia, do Nelson Motta. Ele até autografou para mim uma vez. Aquele livro sim tinha cenas quentes. Foi por causa de uma prostituta ruiva, que saciava os prazeres do protagonista, que eu quis pintar os cabelos de vermelho pela primeira vez. Depois vieram muitos outros. Uma avalanche de livros antigos que eu encontrava na biblioteca da escola. Para mim, aquela biblioteca era um grande centro de pornografia literária. O mais interessante era que eu enxergava sexo em livros cuja temática principal não era essa. Mas o sexo estava lá. Nas entrelinhas. E na minha mente. Foi a época que eu mais li. Trinta e três livros só da Agatha Christie, em quatro meses. Trilogia do Senhor do Anéis também. Como eu disse, depois de um tempo eu via sexo onde ninguém escrevia.

Matava aula para ler escondida. Sempre gostei do cheiro da biblioteca do Instituto de Educação. Aqueles livros velhos, aroma doce. Histórias e mais histórias, vidas inteiras abertas ao meu simples alcance. Eu pirava. Não era só por causa da pornografia embutida, não. Eram todas as possibilidades que eu enxergava depois de ler um livro. Aprendi frases-chave, modos, educação. Quando me faziam um elogio numa festa, eu respondia “O(a) senhor(a) é muito gentil falando isso”, ao invés de um simples “Obrigada” – aprendi com uma série de livros curtinhos, da coleção da revista Marie Claire dos anos 40, que eu usava para praticar francês.

Foi com Helen Fielding, em Causa Nobre, que aprendi que transar com alguém que não era seu namorado ou marido, não era errado. Foi nesse livro também que eu aprendi que não devemos nos submeter aos caprichos de nenhum cara, e que a maioria deles não vale nem metade da maquiagem que usamos para encontrá-los. Foi lendo que aprendi a lançar olhares quentes, e olhares frios. Foi lendo que aprendi que beijos devem ser quentes, que mãos frias devem encontrar mãos quentes para mantê-las sadias.

Por muito tempo aconselhei sexualmente, sem nunca ter feito sexo. Consolei depois das tentativas doloridas das minhas amigas mais próximas, abracei e disse que sexo ficava melhor com o passar do tempo. E eu era virgem. Nunca falava que era, mas também não dizia que não era. Afinal, se cogitassem que eu nunca tinha feito sexo, ninguém me ouviria. E eu, por incrível que pareça, sabia muito bem que aquelas coisas que eu falava eram certas. Algo dentro de mim dizia isso. Os livros diziam, eu assinava embaixo e repassava a mensagem.

Confissões literárias.

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