Algumas pessoas surpreendentemente vieram me dar parabéns pela minha participação na primeira Marcha das Vadias (ou Slutwak) do Brasil, que aconteceu no último sábado, dia 4 de junho. Outras me falaram via facebook, msn e twitter, que eu deveria lutar por causas mais nobres.

Como diz a Lola, normalmente quem faz este tipo de comentário não está lutando por causa alguma. Parecem aquelas pessoas mal-educadas que jogam lixo no chão – nem vou dizer o quanto isso me revolta quando vejo acontecer numa cidade como São Paulo, rainha das enchentes – e dizem que estão gerando emprego. Nessas horas eu queria ter o direito de poder dar uma voadora no queixo da criatura, na parceria mesmo, como um favor ao cidadão, para que ele volte a si e pare de falar besteira por aí. Trabalho de choque.

Se ser vadia é sinônimo de exercer minha sexualidade do jeito que eu bem entender, com quem eu bem entender, com pessoas maiores de idade, com consentimento… Então eu só posso ser vadia. Para desgosto da minha mãe. Essa palavra, vadia, é tão pejorativa. Na verdade não lembro de ninguém ter me chamado disso – a não ser minha mãe, quando eu tinha dezesseis anos e disse que queria dormir na casa do meu namoradinho da época -, mas muitas meninas o são. Os caras vivem dizendo que, por eles, o mundo seria só putaria. Mas quando aparece uma mulher mais libertária, mais libertina, que assume todo o seu sexo, todo o seu gosto por sexo, eles mesmos a tratam pejorativamente. Puta, vagabunda, vadia; não presta. Porque assumir que gosta de sexo ainda é tabu entre as mulheres. Porque nós damos, nós concedemos; é como se estivéssemos fazendo um favor. Enquanto que sexo é uma troca. Nenhuma das partes está cedendo nada para a outra se há desejo dos dois. No caso das putas (prostitutas) aí sim há uma relação de concessão, mas ainda nesse caso, onde a aplicação da palavra puta poderia ser teoricamente correta, não acho que a denominação deveria ser vista como negativa.

…Mas, de toda essa enganação ideológica, do mito da concessão das mulheres – e elas mesmas acreditam e perpetuam o mito – vem o estupro.

Estupro é poder, é dominação. É arrancar à força aquilo que não foi pedido, no imaginário popular. Para mim é forçar a troca que deveria ser o sexo. É violentar – mesmo. Daí que muitas vezes as pessoas que gostam de fantasiar com estupro acabam por confirmar uma teoria maluca que povoa a mente de estupradores em potencial como forma de justificar seu ato gravíssimo. Porque quando você fantasia um estupro com seu namorado, isso não é um estupro, baby. Você se sente excitada com a situação, você sente prazer naquela encenação toda. Estupro não é isso. Quando você é estuprada você não tem lubrificação, seu corpo é invadido por alguém que você não tem desejo, pelo contrário, rola o maior nojo de dentro de você estar alguém que você não quer de jeito nenhum. Violência, violência, de todos os lados. Dor física, dor psicológica. Então, quem acha que mulher gosta de ser tomada a força tem que avaliar bem sobre exatamente o quê está se imaginando aí. Qual é o limite?

No caso das piadas do infeliz Rafinha Bastos, acho que não é ele quem deveria ganhar tratamento de choque, mas as pessoas que não vêem nada de mal esse tipo de declaração, comportamento, piada, whatever,  me acham maluca por me incomodar com essas coisas, e acham que o cara está no seu direito de expressão. Sério mesmo: nós lutamos pela democracia para isso? Para ouvir esse tipo de barbaridade?

As pessoas dizem que tem medo do politicamente correto. Com o perdão da palavra, mas… meu cu, né?

Não sabia que politicamente correto era protestar contra algo que me incomoda. E o assédio na rua, os comentários sobre minha índole conforme eu trato os meus amigos homens, etc etc, são coisas que me incomodam. Demais. Já ouvi, quando trabalhava (muito mais) com programação, que eu só era contratada nas empresas porque era muito difícil ter mulheres decentes ao olhar masculino nessa área. Eu não sei quantas noites de sono eu quase perdi encucada com isso, questionando minha própria capacidade profissional, até um dia aprender a não ligar para essas coisas. Mas mesmo que eu não ligue, o pensamento de quem destila esse tipo de comentário permanece. E não só na cabeça da pessoa, mas na impressão geral da população, como uma arma de desconfiança apontada para a cabeça de cada ser humano que nasce com uma vagina. Como aquele velho papo do interrogatório na delegacia após a queixa de estupro: mas como você estava se vestindo? Você tratava bem o estuprador? Você não acha que ele pode ter interpretado sua educação de forma errada? Então, se não somos educadas, as pessoas dizem que somos mal-comidas. Vocês percebem? Todos os comentários giram em torno da nossa sexualidade, não importa o motivo nem a situação.

Sobre o caso Strauss-Kahn (do cara do FMI que tentou estuprar uma camareira em hotel em NY):

defesa deste sujeito tentarao de tudo para mostrar o quanto ela mereceu o estupro. vao atrás de toda e qualquer fofoca desimportante para o caso que possam encontrar – se ela teve um caso extra-conjugal, se deixou de pagar uma entrada de cinema e entrou de graca, se roubou bala das lojas americanas, se beijou mais de um garoto numa festa, se usava seu uniforme de camareira muito colado, se foi gentil com esse sujeito. tudo o que ela é – que é o que ela e qualquer ser humano tem direito de ser – vai ser usado contra ela no tribunal. num caso como esse, é a vítima que é julgada, e nao o réu. isso é MUITO grave.

Fonte: Bolhas, Champagne, cowboy

 

Espero que mais brasileiras se dêem conta da grande desvantagem em que a gente vive. Eu sou feminista, sim, com puta orgulho. E não, eu não odeio os homens, apesar de tudo – na verdade eu curto os homens para caramba, se é que alguém me entende… -, a maioria dos meus amigos são meninos, oras.

Feminismo não é o contrário de machismo, como muitos pensam equivocadamente (oi, mídia). Feminismo é igualdade. Também é possível ser feminista e heterossexual – acho que acabei de responder a pergunta que mais me fazem na internet e economizei muito tempo, haha -, não sei de onde tiraram que somos masculinizadas, temos bigode, essas coisas. Acho coisa de gente muito old, muito maluca. Feminismo é uma coisa linda. Existem homens que curtem também, sabe?

18 comments

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  3. Renata · June 8, 2011

    Um texto que soa quase como desabafo. Um desabafo relatiovo ao que temos que aguentar todos os dias dentro de casa, no trabalho, na escola e na rua.

  4. Renata · June 8, 2011

    Um texto que soa quase como desabafo. Um desabafo relatiovo ao que temos que aguentar todos os dias dentro de casa, no trabalho, na escola e na rua.

  5. Pingback: Todos iguais. Mas uns mais iguais que os outros.Blogueiras Feministas | Blogueiras Feministas
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  7. magnus · June 8, 2011

    http://www.espacovital.com.br/noticia_ler.php?id=23944

    desembargadora aposentada do tribunal de justiça e atualmente advogada.

  8. magnus · June 8, 2011

    http://www.espacovital.com.br/noticia_ler.php?id=23944

    desembargadora aposentada do tribunal de justiça e atualmente advogada.

  9. Carol · June 8, 2011

    Disse tudo!! Adorei o texto!!

  10. Carol · June 8, 2011

    Disse tudo!! Adorei o texto!!

  11. Diego Franco · June 8, 2011

    Obviamente que o feminismo não é o contrário do machismo, embora você nunca tenha se proposto a discuti-lo de modo equilibradamente.

    O machismo, termo criado na década de 60, surge como uma crítica ao patriarcado vigente que, enquanto crítica à repressão e exploraração da mulher possa ser considerado, historicamente perde o valor pois singulariza o comportamento da espécie e desqualifica os contextos naturais. Portanto, o machismo não é um movimento filosófico criado por homens, ou teoria totalitária expressa por eles, para reprimir ou gerenciar o comportamento feminino deliberadamente. A participação efetiva do homem na caça e, por consequência, o exercício instintivo de preservação da espécie desenvolveu um conjunto de signos que se repetem ao longo das dezenas de milhares de anos. O machismo, então, é um conjunto de sentidos que narram a ancestralidade e a manutenção da espécie, enquanto o feminismo é um movimento socialmente constituído para questionar a sociedade ocidental enquanto manifestação sociopolítica. O feminismo, diferentemente do machismo, não pode ser discutido associando-o a questões naturais ou instintivas, já que é fruto de reavalições sociopolíticas ou rearranjos econômicos.

  12. Diego Franco · June 8, 2011

    Obviamente que o feminismo não é o contrário do machismo, embora você nunca tenha se proposto a discuti-lo de modo equilibradamente.

    O machismo, termo criado na década de 60, surge como uma crítica ao patriarcado vigente que, enquanto crítica à repressão e exploraração da mulher possa ser considerado, historicamente perde o valor pois singulariza o comportamento da espécie e desqualifica os contextos naturais. Portanto, o machismo não é um movimento filosófico criado por homens, ou teoria totalitária expressa por eles, para reprimir ou gerenciar o comportamento feminino deliberadamente. A participação efetiva do homem na caça e, por consequência, o exercício instintivo de preservação da espécie desenvolveu um conjunto de signos que se repetem ao longo das dezenas de milhares de anos. O machismo, então, é um conjunto de sentidos que narram a ancestralidade e a manutenção da espécie, enquanto o feminismo é um movimento socialmente constituído para questionar a sociedade ocidental enquanto manifestação sociopolítica. O feminismo, diferentemente do machismo, não pode ser discutido associando-o a questões naturais ou instintivas, já que é fruto de reavalições sociopolíticas ou rearranjos econômicos.

  13. Babs · June 8, 2011

    Nessa concordo com tudo do texto mas devo confessar que já fui no comedians e sigo o Rafinha bastos, não achei a piada engraçada mas também não acho que a revolta tenha que ser DIRETAMENTE contra o CQC ou contra o RAFINHA ou o COMEDIANS ou contra qualquer outro alguém… a revolta teria que ser menos focada… comentários MUITO PIORES do que o Rafinha fez e em outras circunstancias (ele tava em um palco, sendo pago pra fazer graça) são tão cotidianos… “ei dona maria vai lavar roupa” no transito, “aquela menina é feia e gorda ela não deveria sair de casa” da boca das próprias amigas… são tantas as situações onde o machismo impera eu nem discuto, escuto isso com um sorriso amarelo na cara… bom enfim divaguei! eu acho que a SLUT WALK é um excelente começo! espero que ela SEJA realizada no próximo ano INDEPENDENTE de rafinha bastos ou faustão ou qqr outra personalidade da mídia soltar qqr comentario machista.

  14. Babs · June 8, 2011

    Nessa concordo com tudo do texto mas devo confessar que já fui no comedians e sigo o Rafinha bastos, não achei a piada engraçada mas também não acho que a revolta tenha que ser DIRETAMENTE contra o CQC ou contra o RAFINHA ou o COMEDIANS ou contra qualquer outro alguém… a revolta teria que ser menos focada… comentários MUITO PIORES do que o Rafinha fez e em outras circunstancias (ele tava em um palco, sendo pago pra fazer graça) são tão cotidianos… “ei dona maria vai lavar roupa” no transito, “aquela menina é feia e gorda ela não deveria sair de casa” da boca das próprias amigas… são tantas as situações onde o machismo impera eu nem discuto, escuto isso com um sorriso amarelo na cara… bom enfim divaguei! eu acho que a SLUT WALK é um excelente começo! espero que ela SEJA realizada no próximo ano INDEPENDENTE de rafinha bastos ou faustão ou qqr outra personalidade da mídia soltar qqr comentario machista.

  15. Cristian Stroparo · June 8, 2011

    Post massa! Em geral odeio estereótipos, inclusive aqueles infringidos na mulher. Acho um absurdo e coisa de quem não tem nada para fazer. Acho que pode-se dizer que sou um feminista, não?!

  16. Cristian Stroparo · June 8, 2011

    Post massa! Em geral odeio estereótipos, inclusive aqueles infringidos na mulher. Acho um absurdo e coisa de quem não tem nada para fazer. Acho que pode-se dizer que sou um feminista, não?!

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