Sexta a gente estava lá, na sinuca com jukebox, e tinha alguém – muito trabalhado no sadismo – que ficava colocando Legião Urbana forever and ever para tocar. Não combinava com aquela noite quente, nem com a sinuca, nem com o nosso papo.

Eu tinha planejado a noite do dia seguinte, e não tinha pensado muito naquela. E aquela noite tinha tudo para dar errado: os bares fechando, aquela jukebox maldita no único lugar que tinha cadeiras vazias, a gente bebendo em copos de plástico…  já passava da meia-noite e eu ainda estava sóbria.Tinha algo de muito errado nisso. No fim deu tudo certo, e o sonho que eu tinha fantasiado há umas semanas atrás, do cara perfeito e o conto que mentem para gente a vida inteira, se desvaiu como um punhado de areia no meio dos dedos. E no final das contas, nem foi doloroso. Foi comedido, foi delicado, foi uma epifania meio que pós-coito, quando a gente se dá conta da idiotice que está fazendo, mas ri porque é uma idiotice muito boa.

Mas é incrível como a consciência e a racionalização dos sentimentos não deixa a gente imune ao sabor amargo de sentir um

O tal doTom Hansen

O tal doTom Hansen

arremedo de rejeição. E não, nem era rejeição do ex-candidato a princípe encantado – o milésimo de uma vida que nem é tão curta, e tampouco é longa. Era rejeição de quem menos se esperava ser princípe, ou sapo, ou qualquer coisa que o valha. Mas que apareceu despercebido, de mansinho, e um dia depois de muitos meses eu percebi o quão idiota era ser “só” amiga daquele cara. E de repente eu entendi aquele filme, 500 days of summer. Fez todo o sentido. Até a trilha do filme com The Smiths - e o fato de alguém ter falado sexta-feira que Legião Urbana era um The Smiths wannabe.

“Eu era mais coerente antigamente” foi o que eu disse para meu amigo lá do sul no msn quando estava jogando toda a minha melancolia para cima dele no fim do domingo. Antigamente eu era só fogo, ou era só paixão. Ou era alucinadamente cheia de tesão, e só tesão, ou enxergava tanta poesia em cada movimento da pessoa que a ternura em excesso me impedia de nutrir paixão carnal. Antes eu era puro Tom Hansen, irremediavelmente romântica, ainda que descrente dos relacionamentos. De enxergar o amor da minha vida em qualquer rostinho bonito que citasse três autores dos quais eu fosse fã. Daí que naquela noite de sexta para sábado eu lembrei de todos os meus relacionamentos. Lembrei até dos relacionamentos que não sei dar nome, mas que são tão intensos quanto qualquer amor verdadeiro que troca confidências embaixo do lençol. E então eu entendi a Summer de verdade. Só porque o papo é bom, a voz é doce, os gostos são parecidos, o tesão é alto, e os amigos aprovam, não quer dizer nada. O “clique” pode acontecer com alguém nada a ver, quando menos se espera – e não tem nada de errado nisso.

Errado é criar expectativas.

 

10 comments

  1. Luciana Nepomuceno · August 15, 2011

    Eita, que menina linda – e sabida! (e veja a coincidência, eu nunca tinha visto este filme, vi sábado e gostei mesmo foi da trilha sonora).

    • garotacocacola · August 15, 2011

      A trilha é sensacional mesmo!

  2. Luciana Nepomuceno · August 15, 2011

    Eita, que menina linda – e sabida! (e veja a coincidência, eu nunca tinha visto este filme, vi sábado e gostei mesmo foi da trilha sonora).

    • garotacocacola · August 15, 2011

      A trilha é sensacional mesmo!

  3. Nathaniel Figueiredo · August 15, 2011

    Literatura e Cinema são duas esferas da arte que podem te colocar a pensar todas as coisas ao teu redor. Teu texto me lembrou o documentário do Slavoj Zizek, “The Pervert’s Guide Cinema-Lacanian Psychoanalysis and Film “, que parte da tese de que a Arte, enquanto representação do real, te diz não O QUE QUERER, mas sim COMO QUERER.

    “enxergar o amor da minha vida em qualquer rostinho bonito que citasse três autores dos quais eu fosse fã”, tu falastes, terminando com a conclusão de que “Errado é criar expectativas.”

    Somos bombardeados por narrativas (blockbusters e best sellers) em que, em um momento de quebra do cotidiano dos protagonistas, ocorre uma epifania amorosa e o encontro de alguém “especial”. (Patricia Arquette, no filme “Lost Highway”, de David Lynch, entrando em cena loira a lá Femme Fatale ao som de “This Magic Moment” por Lou Reed inconscientemente o protagonista a enxerga envolta em luz é um bom exemplo). Qualquer coisa diferente disso pode muitas vezes ser interpretado inconscientemente por muitos como “faltando algo”, pois desde pequenos projetamos uma história para nós em que encontramos um grande amor e temos um final feliz.

    Eu, que há muito tempo venho desencantando meu mundo, tento viver o mais longe possível de reproduções de representações romantizadas.

    Isso me fez lembrar outra coisa: uma vez, há muito, muito tempo atrás, eu te falei que tu criavas narrativas muito perfeitas para teus relacionamentos. Ao que parece, depois de anos caiu a ficha: o mundo é contingência, nós só fazemos de conta que ele tem sentido. =D

    Abraço!

  4. Nathaniel Figueiredo · August 15, 2011

    Literatura e Cinema são duas esferas da arte que podem te colocar a pensar todas as coisas ao teu redor. Teu texto me lembrou o documentário do Slavoj Zizek, “The Pervert’s Guide Cinema-Lacanian Psychoanalysis and Film “, que parte da tese de que a Arte, enquanto representação do real, te diz não O QUE QUERER, mas sim COMO QUERER.

    “enxergar o amor da minha vida em qualquer rostinho bonito que citasse três autores dos quais eu fosse fã”, tu falastes, terminando com a conclusão de que “Errado é criar expectativas.”

    Somos bombardeados por narrativas (blockbusters e best sellers) em que, em um momento de quebra do cotidiano dos protagonistas, ocorre uma epifania amorosa e o encontro de alguém “especial”. (Patricia Arquette, no filme “Lost Highway”, de David Lynch, entrando em cena loira a lá Femme Fatale ao som de “This Magic Moment” por Lou Reed inconscientemente o protagonista a enxerga envolta em luz é um bom exemplo). Qualquer coisa diferente disso pode muitas vezes ser interpretado inconscientemente por muitos como “faltando algo”, pois desde pequenos projetamos uma história para nós em que encontramos um grande amor e temos um final feliz.

    Eu, que há muito tempo venho desencantando meu mundo, tento viver o mais longe possível de reproduções de representações romantizadas.

    Isso me fez lembrar outra coisa: uma vez, há muito, muito tempo atrás, eu te falei que tu criavas narrativas muito perfeitas para teus relacionamentos. Ao que parece, depois de anos caiu a ficha: o mundo é contingência, nós só fazemos de conta que ele tem sentido. =D

    Abraço!

  5. magnus · August 15, 2011

    Samba da bênção – Vinicius de Moraes

    É melhor ser alegre que ser triste
    Alegria é a melhor coisa que existe
    É assim como a luz no coração

    Mas pra fazer um samba com beleza
    É preciso um bocado de tristeza
    É preciso um bocado de tristeza
    Senão, não se faz um samba não

    Senão é como amar uma mulher só linda
    E daí? Uma mulher tem que ter
    Qualquer coisa além de beleza
    Qualquer coisa de triste
    Qualquer coisa que chora
    Qualquer coisa que sente saudade
    Um molejo de amor machucado
    Uma beleza que vem da tristeza
    De se saber mulher
    Feita apenas para amar
    Para sofrer pelo seu amor
    E pra ser só perdão

  6. magnus · August 15, 2011

    Samba da bênção – Vinicius de Moraes

    É melhor ser alegre que ser triste
    Alegria é a melhor coisa que existe
    É assim como a luz no coração

    Mas pra fazer um samba com beleza
    É preciso um bocado de tristeza
    É preciso um bocado de tristeza
    Senão, não se faz um samba não

    Senão é como amar uma mulher só linda
    E daí? Uma mulher tem que ter
    Qualquer coisa além de beleza
    Qualquer coisa de triste
    Qualquer coisa que chora
    Qualquer coisa que sente saudade
    Um molejo de amor machucado
    Uma beleza que vem da tristeza
    De se saber mulher
    Feita apenas para amar
    Para sofrer pelo seu amor
    E pra ser só perdão

  7. Samyra · August 15, 2011

    Será que os clichês do amor são uma prova de que são verdade ou que temos medo/preguiça de viver algo realmente único e diferente, para além da experiência subjetiva.

    É tãããão desanimador quando construído toda nossa retórica e arcabouço de pensamentos, reações e emoções só na base do dualismo, né? (vide frase acima)

  8. Samyra · August 15, 2011

    Será que os clichês do amor são uma prova de que são verdade ou que temos medo/preguiça de viver algo realmente único e diferente, para além da experiência subjetiva.

    É tãããão desanimador quando construído toda nossa retórica e arcabouço de pensamentos, reações e emoções só na base do dualismo, né? (vide frase acima)