Eu nunca tinha pensado sobre a Nigéria até semana passada.
Morei no centro de São Paulo por longas três semanas em abril, e fui embora de lá correndo, too much dangerous for me. A empresa para qual trabalho me colocou num flat lindo, sozinha, na região dos Jardins. Duas quadras do Masp. No meu prédio só modelos, rockers, executivos, artistas plásticos famosos, economistas, etc etc. Região chique. Eu acredito que eu era a única pessoa que não tinha carro, mas ok. (Confesso, deslumbrei.) Era tão bom que eu consegui ir a pé para o trabalho. A pé! Em São Paulo! Mó luxo.

Daí que um belo dia me dei conta de que o prazo de moradia que a empresa me deu estava expirando. E eu não encontrava um lugar com preço que eu pudesse pagar, e que não fosse a duas horas do trabalho. Então calhou de conhecer uma menina legal, que tinha um quarto disponível no ap, etc etc.

No Centro.

Bem, entre morar a duas horas de ônibus do trabalho, e morar lá de novo, topei.

No primeiro dia que andei na rua de noite foi pura emoção. Igualzinho Resident Evil. O crack impera por aqui, apesar de não ter um ponto de venda na minha rua, tem alguns nas proximidades. Eu disse nas poximidades. Ou seja, é tenso. Mas nada demais, no fim. Não sei explicar o que aconteceu, mas tem sido muito ok andar na rua depois que comecei a pensar nas pobres criaturas que vagam por aí depois das 23h como zumbis. É triste, mas né, preciso dos meus meios de defesa. E tem sido ok, de verdade.

Daí que tem dezenas de nigerianos morando aqui na frente. Fazem festa todos os dias, até quase de manhã. E pela primeira vez na vida achei muito útil ter sono pesado e facilidade para dormir – só não é muito bom para minha roomatte, que chegou ontem de uma festa e ficou um tempão apertando a campainha até eu acordar para destrancar a porta por dentro. Mas enfim. Daí que todo mundo me disse para não falar com os tais nigerianos. E eu fui obediente.

Até ontem.

Sexta-feira eu fiquei sabendo que os caras eram bã-bã-bãns do tráfico. Pelo menos foi o que duas pessoas me disseram. E era só o que faltava para eu começar a ter medo dos meus vizinhos da frente. Então, sábado eu ignorei minha forte ressaca e sai para a luz do dia, às 9h da manhã, para comprar os móveis que faltavam para o ap (sofá, mesa, cadeiras, escrivaninha…). Na volta, ali pelo meio-dia, estava exausta, como fome, sede, e rinite alérgica a 2000%, fazendo minha cabeça latejar de sinusite e toda a sorte de “ites” existentes. Parei num salão de beleza para comprar água. Quando chamei alguém na porta, eles apareceram. Dois nigerianos. Me deram a água, eu abri, tomei. E de repente me dei conta de que não tinha dinheiro para pagar; só cartão de débito. Falei para eles. Eles entraram numa mini discussão e um acenou para eu subir as escadas do fundo do estabelecimento para pagar a água com cartão; nisso, o outro interrompe e diz para me dar a água de presente. Eles me aconselharam a sentar e respirar porque eu estava passando mal. Obedeci, mas logo depois agradeci e fui embora.

Mais tarde, sai para comprar baldes e panos para lavar o chão da cozinha e do banheiro. Sai catando uma loja especializada ou um supermercado aberto, e nesse caminho parei para conversar com os evangélicos da igreja que tem próximo. Eles não puderam me ajudar muito, mas foram bastante atenciosos (esse povo adora conversar, hm). Acabei achando uma lojinha minúscula, numa ruazinha meio deserta, perto de onde o pessoal fica fumando/cheirando/etc à noite. Fui até o fundo da loja e não encontrei ninguém. Indo de encontro a porta para sair dali, – tentando não me perder no meio dos corredorzinhos estreitos e atulhados – quando sou barrada por um corpo largo. Era um cara negro, grande, falando no celular. Desligou e começou a me contar da esposa, que estava desconfiada, com um sotaque estranho. Fui falando para ele o que eu queria e ele foi pegando. Falando sempre aos gritos. De repente entrou outro, só que ligeiramente mais magro, com roupas parecidas com as de rappers dos Estados Unidos. Começaram a falar num inglês muito rápido e com muitas gírias, mas deu para entender que o cara novo estava perguntando o que eu queria ali. O outro respondeu que eu estava comprando baldes, ‘i mean – really’. Logo o cara novo foi embora. Então me foi oferecido para comprar produtos importados da Inglaterra. Eu disse que não estava interessada, mas ele insistiu, e abriu um armário que estava fechado à cadeado. De lá tirou um frasco estranho, escrito Detol. Pediu para eu cheirar. Eu disse que não – já olhando para os lados e vendo o menor caminho para sair dali -, mas ele ficou sacudindo o negócio embaixo do meu nariz (parecia ser uma coisa muito forte). Então eu concordei. Tranquei a respiração e fingi que cheirei. Em seguida disse que não queria comprar aquilo, dei o dinheiro para ele, e comecei a pegar meus baldes. Na saída, mesmo vendo que eu estava correndo, ele ainda teve tempo de me perguntar se eu tinha marido.

Menti que eu era noiva.

Hoje, pesquisei sobre eles na internet. É um povo sofrido. As últimas notícias do google sobre nigerianos no Brasil tem a ver com tráfico de drogas e assaltos. Mesmo assim, ainda não senti tanto perigo quanto deveria. O pessoal do prédio me disse que eles vivem em paz com os moradores locais, e o que eles menos querem é prejudicar-nos, afinal, não querem a polícia mais de olho neles do que já está.

E falar em polícia, tem três postos aqui pertinho, sempre com policiais de plantão. Reza a lenda que as únicas coisas que rolam por aqui é briga de traficante com viciado. Apesar do aspecto sujo, há poucos assaltos.

Esses dias eu estava tomando café no McCafé e lendo a revista Piaui. Encontrei uma reportagem sobre as crianças e adolescentes que se drogam e se prostituem em São Paulo. Me choquei ao ler o nome das ruas onde algumas crianças foram recolhidas. São lugares a poucas quadras de distância da minha casa. Enquanto eu ando alegre e sorridente pelos prédios antigos, em direção a 25 de Março e a Galeria do Rock, à noite, na hora que estou me divertindo pela Paulista, há crianças se prostituindo no meu bairro. E eu não tenho colhões de caminhar pelas ruas onde isso acontece.

É chocante, sim.

Obs: Amigos, não se preocupem comigo. Há pessoas que moram aqui há anos, em ruas muito mais tensas do que a minha. A própria garota com quem eu divido o ap mora aqui há três anos. Os vizinhos do prédio são super queridos, a família do mercadinho aqui do lado é super fofa,  etc etc. Há vida no meio desse lixo todo.

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