Link para o excelente post da Lola sobre o assunto: “Enem não vale nada mas eu gosto de você”.

A Ufrgs não é minha universidade simplesmente a partir do momento que eu passei no vestibular, em 2008. Eu já convivia lá desde 1994, ia uma média de três vezes por semana para o campus do centro para almoçar com a minha madrinha e ficar durante a tarde ajudando os bolsistas de Jornalismo e Economia na reitoria. Corria pelos laboratórios de fisiologia, e constantemente era barrada por algum professor dizendo que eu não poderia entrar em alguma sala qualquer. Os alunos geralmente me davam doces, e os bolsistas me pagavam 1 real para ir até o xerox tirar cópias de livros. Então, eu posso dizer que cresci dentro da federal do RS, e mesmo quando criança, assisti de perto muita coisa acontecer. Eleição para mudança de reitoria, atividades do DCE, cartazes anunciando festas nas catacumbas, tangos en la noche na rádio da universidade, trotes na medicina, ocupação de estudantes em protesto à greve de professores e funcionários, empossamento de professores novos, eventos de todos os tipos… eu estava por lá.

O que mais me marcou, sobre a diferença entre a época em que eu era só uma criança qualquer correndo pelo campus e agora que eu sou uma estudante universitária de fato, é a história das greves.

Há quanto tempo não vemos mais greves aqui? Muito tempo. Antigamente era de dois em dois anos. Como eu entrei em 2008, já era tempo de ter uma greve à vista. Mas não tem, nem de longe. Acho que isso é algo a ser pensado antes de começar a se refletir sobre o ENEM – mesmo que, aparentemente, não haja conexão perceptível entre uma coisa e outra, afinal, a Ufrgs ainda utiliza o vestibular tradicional como peneira de entrada dos seus alunos.

Além de não ter greve, as vagas foram ampliadas. Aliás, “ampliadas” não seria a palavra correta. O certo é dobradas. E que reclamem sobre a fila do RU ter aumentado, e sobre o NELE não oferecer vagas novas por causa da falta de salas disponíveis; ainda sim é lindo ver que tem mais gente estudando no ensino superior. Público. Existem cotas que garantem a entrada daqueles que antes não tinham nem a mais remota possibilidade de sequer sonhar em entrar numa federal. Não é a melhor solução, mas é uma medida de emergência que eu acho digna. Elitismo é uma coisa nojenta demais, convenhamos. Mocinho tem um pai que ganha 8 mil por mês, estuda numa escola particular a vida inteira, paga um cursinho no último ano… e voilá: bixo ufrgs 2011. E sim, eu sei que existem exceções – eu sou uma delas -, mas enquanto forem chamadas de EXCEÇÕES há algo de muito errado aí.

O vestibular é um terror. Eu tenho um diário, do meu terceiro ano, quando estudava para o vestibular – naquela época eu não tinha blog, hehe – e tem um desenho naquele caderno que eu nunca vou esquecer. Era um cérberus bem punk, com uma coleira escrito “vestibular”, e atrás tinham os portais do inferno com uma placa escrito “universidade”. Eu nem tinha entrado na faculdade e já tinha idéia de que seria um inferno – eu era esperta e nem sabia! Pena que não sou mais. Mas mantenho a mesma opinião daquela época: vestibular é um método atrasado de medir competência.

E aí entra o ENEM.

Nunca fiz esse exame, mas os comentários que ouço à respeito são unânimes: é uma prova muito mais justa sobre nossa capacidade. Não está perto de ser o exame ideal, mas caminha para isso. Acho que só o fato de terem unificado a avaliação dos estudantes de ensino médio já é um grande progresso. Porque os vestibulares tem tendência a serem regionalizados. A outra grande sacada do ENEM é o ProUni, que é mais uma porta de entrada para um monte de gente virar universitária.

E aí os filhinhos de papai não gostam. Primeiro “tiram” o espaço deles com as cotas nas federais; depois, tiram a vaga deles com bolsas ProUni nas particulares. Volto a falar de política aqui: esses filhinhos de papai votam no Serra, que é farinha do mesmo saco do FHC e do Collor. Vocês lembram das greves que eu falei antes? Pois é, vi todas na época do FHC. Podem me chamar de puxa-saco porque eu não tô nem aí: depois do Lula isso foi parando, até chegar no estado que estamos agora. As únicas greves que tem acontecido são nas particulares. Por que será? Entra bolsa ProUni, eles cortam verba de salário de funcionário e professor – porque os padres da PUC, coitadinhos, não podem tomar Frei Damião né. E aí os filhinhos de papai ficam mais putos ainda.

Ano passado, vazou uma prova do ENEM. Obra de um funcionário da gráfica Plural, que imprimiu os cadernos do exame. A quem pertencia a gráfica? À Folha de São Paulo. A Folha pertence a quem? Rede Globo. Quem foi o candidato apoiado pela Globo nessas eleições? José Serra. E não venham me dizer que “ó meu deus, mas eles fizeram uam reportagem tão bonita com a Dilma quando ela ganhou blablablá”, porque EU ME LEMBRO do vídeo forjado sobre a bolinha de papel no Jornal Nacional hein. Mas, continuando minha linha de raciocício, quem é que apoiou/votou no Serra? Galerê que tem grana né. E quem tem grana estuda aonde? Na federal! E se a federal tem cota, onde filhinho de papai vai estudar? Na particular! E se tem ProUni na particular, o que acontece? Riquinho não tem escolha e tem que dividir diploma com classe média baixa!

Vejam só, não é lindo quando a gente pensa um pouquinho? Parece aquelas revistinhas que tem colunas que mostram duas palavras nada a ver e fazem uma linha de conexões e palavras intermediárias até um assunto chegar ao outro.Não é difícil.

E é aí que eu me pergunto: não seria muito legal começar a avacalhar com o ENEM, já que ele avacalha com um monte de gente que não queria descer do seu pedestal de socialmente privilegiado? Ou que não quer dividir seu lugar ao sol com outras pessoas, já que acerdita na filosofia do merecimento hereditário?

Ah né… chupa caco de vidro para ver se sai leite.

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