aquele sobre os credos do mundo

Tempos que eu não escrevo aqui. Estava levando uma vidinha ali naquelas, trocando de namorado, de emprego – e em breve, de casa de novo, quem sabe? -, viajando muito. Soube da morte de alguém legal ontem, e foi esquisito, já não é mais como antigamente. Lágrimas, sensação de injustiça. Agora é só aquela: ok, menos um para sofrer aqui, que deixe com a gente para lutar contras as mazelas do mundo enquanto ainda conseguimos ver a luz do sol.

Existe toda essa problemática em ser militante, mas não me identificar com nenhum partido; em amar tecnologia e lógica de programação, mas gostar mais de trabalhar com pessoas do que com bytes; em gostar mais de cachorros, mas ter dois gatos em casa; em não acreditar em deus, mas sentir que existem forças maiores que a minha compreensão movendo o mundo; em ser feminista, mas trabalhar na publicidade; em gostar de viver em grupo, mas preferir morar sozinha; em amar loucamente praia e campo, mas morar na maior metrópole do país. Tem dias que é difícil para mim seguir a vida normalmente, como se não estivesse aqui a passeio, mas sim dando duro para obter conforto, estabilidade, dinheiro, blablablá. Eu sinto que, sim, eu vim ao mundo a passeio. Para aproveitar mesmo.

É incrível quando os problemas que você tem, por exemplo, no trabalho, ficam tão pequenos quando você lembra daquelas pessoas e animais que passam necessidades absurdas na vida.

Uma coisa que é muito difícil é tentar entender alguns objetivos e mecânicas no sentido de me posicionar no meu próprio caminho no mundo. Afinal, qual é a finalidade de militar, ser voluntária, e alimentar meu desejo constante de ajudar os outros, se eu nem mesmo acredito que isso sirva para alguma coisa, já que no final todo mundo vai morrer mesmo? Eu não faço a mínima idéia do que me responder sobre isso, mas eu sei que existe algo de muito errado no mundo quando eu posso me alimentar bem todo os dias, e acessar qualquer tipo de informação na internet, e outra pessoa – tanto faz se do outro lado do mundo, ou do outro lado da rua – não tem esses dois mesmos direitos que eu. Tem gente que não tem nem água encanada. Qual é a diferença entre eu e essa pessoa? Só porque nascemos de ventres diferentes, apenas isso. Mas biologicamente somos iguais. Então, para mim, não faz sentido em eu ter um teto e o outro não ter. É isso que me faz levantar todos os dias de manhã, saber que existe algo muito errado no mundo e pessoas são injuriadas por um sistema cabuloso que, tanto eu e meus amigos quanto os políticos corruptos, alimentamos sem escrúpulo algum. Eu, estando do lado de cá do privilégio, consigo perceber bem essa diferença. E ela por si só é o suficiente para eu achar que está tudo errado. Acho que é só por isso, por me sentir responsável por quem é prejudicado em prol do meu conforto classe média, que eu não desisto de tudo e me atiro num poço.

Porque esse mundo ainda não está todo perdido.

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