Atenção: o texto a seguir contém jargões e expressões muito íntimas da área de informática.

Ta aí uma coisa que eu sempre esqueço que tenho. Arrogância. E estupidez. Essa combinação é praticamente uma bomba, principalmente para pessoas que já tem fama de ser nariz em pé. Eu tive fama de nariz em pé a vida inteira, até eu sair do colégio.

Daí que eu estava lá na aula de algoritmos, e a gente tem que programar com um negócio chamado Scheme. Eu olhava a sintaxe daquela linguagem de programação e ficava meio ‘WTF?’, porque parecia estúpido demais. Então, qualquer função que a professora dava para explicar a matéria eu fazia em PHP, ou outra liguagem que eu conhecesse. Eu ficava  rindo por dentro, porque todo mundo na aula ficava escrevendo naquela sintaxe estranha e completamente sem sentido – para mim. Também nunca cheguei a dormir na aula, mas enquanto meus olhos posavam no slideshow da professora, minha mente vagava nas mais distantes terras da imaginação – ou no trabalho de secar o colega bonito mais próximo. Cheguei mesmo a estudar Cálculo 2 naquela aula.

Até que semana passada a gente tinha que fazer um trabalho em aula e entregar. Naquele dia a professora não estava, mas tinha um professor – bem apessoado, por sinal – que estava passando de aluno em aluno para ver o progresso com as funções condicionais e etc. Eu não queria fazer feio, óbvio, já que meu plano de dominar o mundo começa com a conquista dos professores da faculdade – leia-se aqui: fazê-los me achar uma excelente aluna -, e então me apressei para traduzir meus códigos para a sintaxe do Scheme.

Tragédia.

Óbvio que eu não ia aprender uma sintaxe nova em 15min. Sem contar que a gente tinha que fazer tudo à mão – sim, programas compilados no caderno; não pergunte – e eu não tinha como consultar o Google para checar as declarações, nem a identação mais usada para fazer aquilo. O professor chegou e eu tive que ter a cara-de-pau de dizer para ele que eu não sabia programar naquilo. De qualquer forma mostrei meu caderno e minhas funções com outra sintaxe. O cara riu para mim e disse que estava feliz de ver que eu tinha entendido a alma do negócio e tinha feito as funções direitinho, mas que infelizmente se eu não soubesse a sintaxe do Scheme eu rodaria na cadeira, porque a prova tinha que ser feita daquele jeito. (E provavelmente eu não vou ganhar ponto nenhum com aquele trabalho, ou seja, botei meu tempo fora – poderia estar fazendo algo mais útil no horário da aula, algo tipo jogar sinuca na vila, ou protelar trabalho lendo o GoogleReader.)

Aí eu engoli meu orgulho e me convenci que eu tenho que parar de ser arrogante e tentar, pelo menos uma vez, fazer as coisas do jeito que me pedem. Porque né, eu tenho tendência a mudar tudo e fazer de um jeito diferente – não porque eu acho que é melhor fazer diferente, mas porque muitas vezes é birra mesmo, só para dizer que existem alternativas, e para provar sei lá para quem que eu consigo fazer a mesma coisa com mais de uma maneira.

Burrice. Pura burrice.

Lá no meu trabalho a gente deveria usar um gerenciador de projetos, o Redmine, e eu fiquei um tempão trabalhando nele, mesmo estando convencida de que ele era uma porcaria. Mas eu lutava contra essa idéia e dizia para mim mesma – e para os outros – que aquilo poderia dar certo se eu ralasse para que isso acontecesse. E não deu. Era uma bosta mesmo trabalhar com aquilo, e eu acabei gastando quase um mês atrás de outro gerenciador de projetos que se ajustasse às nossas necessidades. Mesma coisa para escolher o CMS com que eu trabalharia esse ano. Testei Symphony, Drupal, Joomla, WordPress, Frog… Todos esses, mesmo sabendo que no fim eu teria que trabalhar com Plone. Mas eu tinha que provar para mim mesma que essa era realmente a melhor alternativa. E mesmo sabendo que se eu descobrisse que não era, eu teria que usá-la de qualquer jeito, por causa do trabalho.

Teimosia e arrogância: a gente vê por aqui.

Ou seja, não seja burro e arrogante como eu. Professores e chefes normalmente tem mais razão para definir coisas do que alunos e funcionários. Minha mãe sempre me disse isso, mas eu sempre tinha que provar que era verdade, com qualquer chefe ou professor possível.

Perdi horas preciosas sendo cabeça-dura.

Shit!

2 comments

  1. Marcos Vinicius · September 20, 2010

    Impossível seguir seu conselho. A arrogância já descolou de mim, mas a burrice não. Ainda sonho com os algoritmos vindo atrás de mim saindo do caixa vinte e quatro horas…
    Falando sério, experimentações tem que ser feitas, mas na hora certo e quando se está certo de que a possível mudança será benéfica e se gastará menos energia na sua utilização. E professores e chefes não tem necessariamente razão, eles tem mais autoridade – não confundir com autoritarismo – para tal assumir responsabilidades. E convenhamos – todo mundo quer pular a cerca, correr riscos, pão seco e trololó, mas sem assumir as presepadas. Resumindo, todo mundo quer curtir uma mas voltar para a cama quentinha e sair da reta.

  2. Marcos Vinicius · September 20, 2010

    Impossível seguir seu conselho. A arrogância já descolou de mim, mas a burrice não. Ainda sonho com os algoritmos vindo atrás de mim saindo do caixa vinte e quatro horas…
    Falando sério, experimentações tem que ser feitas, mas na hora certo e quando se está certo de que a possível mudança será benéfica e se gastará menos energia na sua utilização. E professores e chefes não tem necessariamente razão, eles tem mais autoridade – não confundir com autoritarismo – para tal assumir responsabilidades. E convenhamos – todo mundo quer pular a cerca, correr riscos, pão seco e trololó, mas sem assumir as presepadas. Resumindo, todo mundo quer curtir uma mas voltar para a cama quentinha e sair da reta.