aquele sobre ser contra o aumento da passagem de ônibus e tudo o mais

- Me vê 5 águas sem gás, por favor.
– Sim… 15 reais…
– Aqui, no débito. Obrigada.


 Trajeto lacrimogênio

Sai do Ibotirama com a sacolinha na mão, caminhando calmamente. Estava na esquina da rua Augusta com a rua Fernando de Albuquerque, que fica na frente do Vitrine, o bar que dizem ser dos skinheads (embora eu nunca visto um lá dentro). Quinta, oito da noite. Fui subindo em direção à Bela Cintra, para encontrar os amigos que estavam por lá. Os estabelecimentos fechados, poucas pessoas na rua, todo mundo falando meio baixo, e a maioria parada na porta dos prédios, meio que dentro e meio que fora, como se estivessem aguardando um momento para entrar rápido para a segurança das suas casas ou escritórios. Cruzei a Haddock Lobo e continuei andando. Encontrei um punhado de pessoas gritando “sem violência”, na frente de um posto de gasolina. Fiquei aliviada, a rua não estava mais deserta.
BUM. Ecoou o primeiro estouro que escutei perto o suficiente para fazer meu coração disparar. Todo mundo começou a correr em direção a Augusta. Olhei para os dois lados. Estava cercada. De cada lado, na Bela Cintra, vinha um pequeno pelotão de polícia, de escudo, jogando bombas barulhentas e muito gás. Não tive escolha, desci para a Augusta de novo, correndo como se fosse desabar lá embaixo no Vitrine.
Dobrei a esquina e comecei a descer em direção ao Centro, tentando guardar as cinco garrafas de água na minha bolsa. De repente tropeço num grupo de pessoas correndo pelo lado contrário. Eles me avisaram: o Choque tá subindo a Augusta, corre para cima. Bom, não tinha o que fazer. Corri uma quadra e meia para cima, e aconteceu a mesma coisa. Me choquei com pessoas correndo pelo lado contrário: corre para baixo porque tá rolando bala de borracha de polícia vindo da Paulista.
Olhei para trás, a rua Frei Caneca, só vi fumaça, e senti cheiro de bomba. Olhei para frente e disparei em direção à Haddock Lobo. Cheguei lá com mais um grupo de umas quinze pessoas. Quando percebemos, estávamos correndo novamente, porque um dos lados da rua também estava com um pelotãozinho, que vinha estourando balas de borracha para qualquer lado.
As primeiras lágrimas começaram a cair dos meus olhos. Não, não era medo. Não era revolta. Era gás. E eu comecei a ficar tonta.
Não sei como, consegui correr sem parar até a Consolação. Cheguei lá e notei que estava, finalmente, no olho da multidão. Não tinha encontrado meus amigos, mas não me senti só por nenhum segundo. Mas foram só três minutos de glória. Em seguida, notei que, além de estar com centenas (milhares?) de pessoas, eu estava encurralada de novo. E nem o fogo que o pessoal ateou no lixo para fazer a polícia se afastar foi suficiente. Não tinha para onde correr na avenida Consolação.
Na falta do que fazer, sentamos no chão. Jogamos as mãos para o alto, olhamos para a polícia, e dissemos: sem violência.
Eles simplesmente jogaram bombas de gás na gente.

Esquina da Consolação

Exatamente onde ateamos fogo para atrasar a ação da policia, sentamos no chão, pedimos ‘sem violência’ e levamos bombas de gás lacrimogênio. Foto: Futura Press

 

Horas antes, no trabalho, era de tarde – a tranquilidade da zona oeste do centro estendido. Eu estava numa reunião, e embora estivesse falando, falando, e falando, mordia meus dedos o tempo todo. Minha inquietação não era pelos números que eu estava apresentando ali naquele pdf. Era a ansiedade pelas mensagens no Whatsapp, que não paravam de chegar uma atrás da outra no celular, do meu grupo de amigos que estavam no centro de São Paulo – no que seria um marco, e uma história que eu vou contar para os meus filhos daqui umas décadas, provavelmente nos mesmos jantares de família em que eu vou contar sobre todas as vezes que corri da polícia nesses vinte e três anos de vida. Bem, talvez meus filhos nunca precisem ir em jantares chatos de família. Talvez eu nem tenha filhos, vá lá. Mas o que eu vivi hoje mudou a vida de muita gente que estava lá junto – só não digo que mudou a minha porque o vermelho do lado esquerdo gauche corre em mim desde muito pequena. Vá lá, menina, ser gauche na vida. Quando falam isso, sempre acho que estão falando para mim.
Bom, bateu 19h, fumei um cigarro e assim que desligaram o monitor onde estava passando as imagens da Globo News, com aquela multidão pacífica levando bomba de gás lacrimogênio na cara, eu juntei minhas coisas e parti. Deixei a bike lá, e fui caminhando pela Rebouças, pensando naqueles R$ 3,20 da passagem de ônibus. Na inflação. No meu aluguel. No meu salário. Na bicicleta que eu uso todos os dias para ir para o trabalho. Pensei na minha cidade natal, Porto Alegre. Duvidei da minha identidade e da minha paulistânia.
Será que aquela causa era minha?
Parei.
Pensei.
Murchei.
Inflei.
A causa era minha. Era sim. Tão minha quanto de qualquer outra pessoa. Desde o cara que nasceu em São Paulo, na perifa, e pega 3 conduções por dia para trabalhar há vinte anos, até o cara que chegou do nordeste ontem.
Uma amiga comentou no Facebook que quando começam a machucar jornalistas, prendê-los, atirar neles, é sinal que algo muito grande está acontecendo. Bom, eu já não tenho dúvidas de que essa história toda já está muito além do aumento do preço da passagem. Acabamos de personificar o Estado, e de repente todo mundo entendeu que se a gente arredar o pé, as coisas continuam como os outros decidem pela gente que está bom. E não está, não.

Policiais apreendendo VINAGRE, que os manifestantes iriam usar para se proteger das bombas de gás. Foto: Futura Press

Policiais apreendendo VINAGRE, que os manifestantes iriam usar para se proteger das bombas de gás. Foto: Futura Press

Por isso, vamos ocupar São Paulo. Vamos continuar ocupando o Rio. Floripa. Goiânia. Porto Alegre.
Não, não estou convocando ou re-convocando pessoas a protestarem contra passagem de ônibus. Mas que acreditem nos problemas que querem resolver no lugar que vivem, e que não olhem só para o próprio umbigo achando que as coisas se resolvem pela polícia, ou que elas nunca vão se resolver. Nunca vi revolução sem violência.
É triste? É. Mas ativismo de sofá cumpre a função da disseminação da informação muito muito bem. Porém, nós temos que ser a informação também. Nunca sei se foi o Sérgio Amadeu ou o Dpadua quem disse, mas nessas horas vem à cabeça: Tecnologia é mato, o importante são as pessoas.

Foto: Futura Press.

Foto: Futura Press.

São Paulo é nossa, e nós somos de São Paulo.
O Brasil é nossa casa, quem manda aqui é a gente.

4 comments

  1. Cecilia Santos · June 14, 2013

    Muito orgulho de você! <3
    É um novo tempo, mas a repressão é a de sempre. Força aí!

  2. Thiago H. · June 14, 2013

    Parabéns pelo relato!
    E bem vinda a São Paulo!

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