aquele sobre correr atrás do seu sonho

Disclaimer: Esse texto é sobre isso.

Hoje eu fui buscar uma toalha para tomar banho e percebi que todas estavam recém-lavadas e ainda muito úmidas, estendidas no varal com um dia nubladíssimo se abrindo em frente a elas. Peguei minha saída de banho atoalhada e me virei para me secar com aquilo; sem banho eu não ia ficar, e sem me secar também. Muito simples.

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Por algum motivo, no meio desse raciocínio trivial, eu desesperei um pouquinho – rolou o que eu chamaria de ataque de pânico, se eu não conhecesse pessoas que tem ataque de pânico de verdade. Fiquei pensando na série de coisas que muitas vezes pensei em deixar de fazer porque eu não tinha na minha mão o que seria necessário para fazer aquilo. Essa noite eu sonhei que tinha viajado com alguém, e ido para uma praia linda e deserta, e quando chegamos lá a gente se deu conta que não trouxe barraca para o camping, mas na mesma hora a gente se olhou e riu “dormimos no carro então!” e saímos correndo para assistir ao pôr-do-sol na praia. Acordei com essa sensação incrível de que não existe obstáculos para gente fazer o que quiser da nossa vida, se nós formos criativos e tivermos um mínimo de discernimento – e formos classe média, claro. Apesar de eu estar falando de coisas pequenas.

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E de repente eu lembrei do amigo da galera que morreu no último sábado, e das 48 horas que eu claramente escondi de mim mesma que quem tinha morrido era exatamente aquela pessoa. Pela primeira vez eu senti na prática uma consequência real, e talvez pós-traumática, dos anos terríveis que eu vivi em silêncio na adolescência, dizendo para todo mundo que estava tudo bem, mas por dentro me sentindo completamente arrasada e desejando profundamente estar tão morta quanto todos os amigos que eu perdi nessa fase. Só que não rolava de falar para os meus pais e nem para os amigos (os vivos, claro) que eu estava arrasada por dentro, porque a resposta que eu procurava nenhum deles poderia me responder. Seria injusto jogar aquilo neles. Então acabou que eu segurei a pergunta aqui dentro por pouco mais de dez anos e finalmente eu a joguei para o mundo: por quê?
Ontem, depois do ataque de choro incontrolável no banheiro da empresa, sentei na minha mesa e contei para o pessoal o que estava acontecendo. Todos se compadeceram, claro, e deram os pesâmes. Uma garota, naquela tentativa normal que as pessoas tem de passar o sentimento de conforto e indignação pelo acontecido, soltou uma frase clássica que se ouve nesses momentos “quando gente jovem morre não é certo, não parece natural“.
Faltou muito pouco para eu virar e respoder “não, acontece sim, e é mais normal do que você pensa”, mas não juntei espírito de porco suficiente para responder isso – afinal, ela não merecia. Ninguém merece, afinal de contas. Só sorri e concordei com a cabeça. Mas o fato é que, para morrer basta estar vivo. Não interessa a sua idade. Aprendi isso tão cedo que chega a ser ridículo.
Mas o fato é que, essa dor que a gente sente, é só a lamentação profunda de todas aquelas coisas que aquela pessoa simplesmente deixou de viver. Não quer dizer que ela saiu perdendo , é simplesmente a vida que é assim. As coisas acontecem, você pisa na rua e está sujeito a todo o tipo de coisa. O que faz diferença é o que você faz em vida. E bom, o nosso amigo estava fazendo. Não era porque ele não tinha uma pista de treino adequada que ele deixou de treinar. Ele sabia dos riscos, arcou com eles, e foi – assim como dezenas de amigos nossos, na mesma situação, o fazem dia após dia. O assalto poderia não ter acontecido se todo mundo contribuísse o mínimo para gente ter um mundo mais justo com todos. Aconteceu. É horrível, e mesmo assim, tem tanta gente fazendo o mesmo… Eles devem parar de treinar porque alguém morreu? Devem parar de seguir seus sonhos? Claro que não. O que aconteceu foi inadmissível, e é por isso que mais pessoas devem fazer o que o Igor fazia: ir para a rua e ocupar o espaço que nos pertence. Quanto mais pessoas fizerem isso, menos gente vai morrer. A demanda por espaços seguros aumenta; aliás, todo o espaço deveria ser seguro. E temos que bater nessa tecla para que mais jovens possam continuar seguindo seus sonhos sem serem brusca e estupidamente interrompidos, não por criminosos ou carros pilotados por irresponsáveis, mas sim por uma sociedade opressora, que prega a cultura do medo ao invés de te ensinar a botar a cara para fora e não ter medo de fazer o que você quiser.
Hoje, ao invés de ficar com medo de pedalar por aí, nós devemos fazer questão de colocar as bicicletas na rua. É nosso deve ocupar o espaço que é nosso por direito, e que foi arrancado do Igor à força, quando ele ainda tinha tantos caminhos para trilhar.

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É por isso que ontem, quando eu finalmente tive coragem de me perguntar “por quê?” eu sabia a resposta. A resposta é: porque viver é preciso.
Só não vive quem não quer. Todos acham que o conforto é um prisão, o medo também, eu diria que todos são apenas formas diferentes de se viver. Tem gente que escolhe ter medo de pedalar, tem gente que escolhe ser sedentário, tem gente que escolhe ter emprego meia-boca e segurança financeira, tem gente que escolhe trabalhar estressado em troca de um salário gordo, tem gente… Tem gente. Gente tem todas as opções do mundo. Nós optamos por correr atrás do que a gente quer. O Igor também. E por causa dele e de tantos outros que tiveram um destino assim, é que nós devemos bancar nossas escolhas. Eu escolhi botar as perninhas para pedalar há pouco mais de dois anos atrás, e eu banco. E toda vez que um Igor morre, eu tenho mais vontade de continuar. Viver é preciso. Eu não posso deixar de viver por causa do risco – caso contrário, os próximos jovens que sentirem vontade de pedalar depois de mim, terão um caminho maior para percorrer e tantas dificuldades quanto eu para buscar seus sonhos. É para que os próximos jovens que quiserem treinar com suas bikes, sejam livres para fazê-lo em segurança, que quem ficou para contar a história deve permanecer firme e não desistir. Não só por quem treina, mas por quem usa a bike como meio de transporte. Principalmente por esses.

Não quer dizer que a gente não se assusta. Não quer dizer que a gente não tem medo. Mas se é para ir, que a gente vá com medo mesmo. E com a garantia de que não estamos fazendo só por nós, mas também por todos aqueles que precisam buscar na gente a força para seguir seus caminhos.

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Em tempo: foi para o Igor que, brincando, eu prometi que ia fazer um Audax. Nem era amiga próxima dele, mas já o via com uma frequência que tornava todo o encontro no bar, uma pequena cobrança. Claro, uma cobrança para saber se eu estava treinando para fazer esse desafio que ele, com 18 anos, já tinha feito inúmeras vezes. Isso que eu vou fazer o desafio de 100 ou 200km – o Igor fez o de 600km. Duas vezes.
Então, a missão é fazer o Audax. Vou ficar ligada na agenda, e vamo que vamo. A vida continua, e nós temos que cumprir nossas promessas.

 

 

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  1. Leandro Costa · August 27, 2013

    A ida do Igor mexeu comigo de uma tal forma, que me peguei ontem chorando compulsivamente no banho, não o conhecia moro em Três Rios-RJ, sou ciclista e fã do AUDAX, já tinha visto um Video dele do ano passado no qual ele participou do AUDAX 600 em Rio das Ostras e fiquei fascinado, pensei quero fazer isso, e quando vi a homenagem do AUDAX Rio, pesquisei para saber o que tinha acontecido, me deparei com mais uma história de estupidez sem precedentes, e quando acontece com um “dos nossos” , a coisa toma proporções que não conseguimos descrever, você e as outras pessoas que fizeram homenagens a ele colocaram muito bem, o sentimento e a sensação do que é “perder” um companheiro de pedal mesmo que tão distante mas companheiro sim, porque só quem pedala sabe o que é isso, e como você disse muito bem no texto “Hoje, ao invés de ficar com medo de pedalar por aí, nós devemos fazer questão de colocar as bicicletas na rua. É nosso deve ocupar o espaço que é nosso por direito, e que foi arrancado do Igor à força, quando ele ainda tinha tantos caminhos para trilhar.” é isso que vou fazer mais e mais a cada dia, Parabéns pelo texto e vamos pedalar.