aquele sobre as meias perdidas

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Comigo sempre rolou um problema crítico sobre meias. Eu amo meias 7/8 e 3/4, tenho uma coleção. Mas sempre esqueço de comprar as meias que a gente mais usa no dia a dia: as meias soquete, de algodão, simplinhas. Branquinhas, pretas, cinza… Básicas. É muito frequente eu andar por aí com uma meia dessas de cada par, porque vivo perdendo elas por aí e não faço idéia de como. Esse lance de perder também acontece com meus sutiãs, mas isso é assunto para outro post.
Então, desde pequena eu tenho a sensação constante de precisar de meias. É algo que já faz parte de mim, como se fosse uma daquelas manias que duram a vida inteira, tipo roer unhas.

A medida que eu fui crescendo, peguei um hábito estranho. Eu ia na gaveta de meias da minha mãe, ou do meu pai, e pegava pares de meias de algodão deles – principalmente quando eu não achava nenhuma minha na gaveta, ou no cesto de roupas sujas. Quando ia viajar, sempre dava uma passada no quarto da minha irmã e fazia o mesmo. Era tão simples ir numa loja e comprar meias, mas eu sempre esquecia disso. Às vezes passava  a tarde inteira comprando roupas no shopping e não levava um par de meias de algodão, no máximo eu comprava as minhas boas e velhas 7/8, dos mais variados tons de preto ou roxo. Não era por mal, era esquecimento mesmo. Quando fazia aniversário e alguém me perguntava o que eu queria ganhar, eu sempre dizia “meias de algodão simples, por favor”, e todo mundo achava que era brincadeira. Não, não era. E eu nunca ganhei meias de aniversário.

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Adolescente, eu comecei a namorar cedo. Um namoradinho atrás do outro. E ia pegando as meias deles também. Esses dias até achei um pé de uma meia velha, de futebol, de um namorado que tive há uns nove anos atrás. Com o tempo, nem pegava mais as meias dos meus pais, só dos namorados. Alguns me davam meias novas de presente. Teve um ficante que me trouxe meias de algodão de Paris, os únicos dois pares de meia que eu consegui manter a vida inteira por mais de alguns meses (esses são campeões, devem ter uns três anos já). Mas só porque são muito grossos e esquentam meus pés no inverno com muita eficiência. O problema das meias é tão forte que do meu último rompimento, a única coisa que não consegui me livrar foram as meias do ex, porque se não eu corria o risco de ficar sem meias. E lá estão elas, meio perdidas, já sem os pares, e eu não consegui jogar fora. Já me vi usando meias do meu roomatte, das minhas amigas, mas principalmente, do meu ex. De todos os ex.
Com o último rompimento de relacionamento, eu passei por algum tipo de transformação que me trouxe algumas epifanias sobre a vida, o universo e tudo o mais. Algumas coisas perderam totalmente o sentido, outras ganharam mais significado, e outras simplesmente pararam de existir. O caso das meias foi inesperadamente um deles. Ao mesmo tempo em que eu tomava vergonha na cara e passava a me vestir melhor, parar de choramingar pelos cantos, essas coisas, eu também comecei a comprar meias. E agora, quase toda a semana eu compro mais ou menos um ou dois pares de meias de algodão novas.
Notei também que eu parei de ser tão dependente das aprovações dos meus pais, e da afeição da minha irmã. Parei de me preocupar tanto com o que os caras com quem eu me relaciono pensam de mim, e claramente me tornei uma pessoa mais carinhosa, e menos exigente. De certa forma, as meias sintentizavam isso. Sempre ficava pagando de independente, desapegada, mas no fundo, eu precisava das meias de todo mundo que estava próximo de mim e que eu gostava.
Hoje já não estou precisando das meias de ninguém, compro as minhas, sozinha, sem ninguém me lembrar.
E os pés estão quentinhos sempre, pela primeira vez.

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