a mtv me fez instalar uma antena UHF

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Pessoal adora falar que ainda bem que a MTV acabou.
Eu não. Nunca tive tv à cabo quando criança, e por muito tempo aquele foi o único canal com programaçào mais interessante ao qual eu tive acesso. Na verdade, primeiro eu achava que era um canal pago, depois descobri que não pegava na minha casa porque a gente só tinha antena interna VHS. Meu pai ficou enrolando e me disse que não tinha grana para comprar uma antena externa UHF, que era o que eu precisava para pegar a MTV. Fiquei sabendo que o cara que uma tia namorava na época estava jogando um monte de eletrônicos fora, fui atrás do lixo e adivinha: tinha a antena que eu precisava. Eu também não tinha computador naquela época, então fui até um museu do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e acessei o Google de lá (eu já amava o google antes de sequer ter um computador em casa). Descobri como instalava a antena, acho que em algum link que eu achei na antiga Nupedia, que era em inglês e eu não entendia o suficiente na época, mas prestei atenção nas imagens. Não lembro bem.

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E então um dia eu me vi, com 12 anos de idade, usando a escada do meu pai para subir no telhado de casa e pendurar uma antena. Isso até foi fácil, difícil foi fazer o cabo passar pelo buraco da parede na sala, e esconder aquela massaroca de fios dos meus pais. Quando eles chegaram em casa, ficaram aborrecidos por eu ter subido no telhado sozinha, mas nào brigaram comigo: eles sabiam que eu estava feliz. A MTV estava pegando e eu ia poder ver a maratona The Osbournes todo o domingo. Naquela altura da vida eu já estava entendendo o que era obter sucesso em uma empreitada. Foi mágico. Foi a primeira vez que eu entendi que nada no mundo iria me deter quando eu quisesse alguma coisa.

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Era 2002, e de rock eu só conhecia Pink Floyd, Ramones, Rush e Black Sabbath. De nacional, só Legião Urbana e Capital Inicial. Veja bem – eu precisava conhecer coisas novas. Lembro que foi o ano que estourou Avril Lavigne, e eu nem conhecia muito de música, mas já achava aquele som muito ruim e excessivamente pop. O Disk MTV rapidamente já não me servia muito, e não demorou para eu descobrir o Massacration, e os programas especiais que contavam a história das bandas. Depois veio a paixão e o asco pelo João Gordo, total mixed feelings que eu não tinha idade para entender; um misto de carinho por ele ter me mostrado tantas bandas novas, com nojo por eles ser tão… João Gordo. Lembro que foi com ele que eu aprendi vários palavròes também. E com o Chorão, do Charlie Brown, eu aprendi o que era “escroto”. Depois da era Avril Lavigne, comecei a prestar atenção nas bandas que tinham garotas, e descobri um mundo todo novo. Descobri que eu poderia fazer rock também, se eu quisesse. Parece besteira, mas isso é muito verdade: eu só conhecia bandas com integrantes do sexo masculino, nunca me passou pela cabeça que uma mulher pudesse tocar. Ironicamente, a primeira mulher que eu vi com uma guitarra na mão, foi a Kim Deal, e logo depois me informaram – aos risos – que aquilo era um baixo, e não uma guitarra.

[Uma pausa e um minuto de silêncio em respeito: muitos anos depois disso tudo (uns 10 anos), quando eu me mudava de Porto Alegre para São Paulo, depois de uma semana na cidade nova, eu liguei para minha mãe. E eu disse o seguinte: “Mãaaae, as pessoas em São Paulo falam IGUAL ao Sinhá Boça, do Hermes e Renato!”.Para vocês vereme as minhas referências. ]

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Nunca tive mesada, e o primeiro dinheiro que eu ganhei na vida foi do meu avô, naquele mesmo ano, 2002. Cem reais. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro na minha frente, e achava que nunca teria tanto dinheiro assim na mão, na vida. A primeira coisa que eu fiz: no dia seguinte, sai do colégio e fui até a Multisom da Rua da Praia, e comprei um violão. Fui até o computador do museu, que tinha acesso à internet banda larga, e copiei à mão a cifra de Hotel California, da The Eagles. Pensem no trauma.

Semanas depois eu ria assitindo um programa da MTV que mostrava o KLB fazendo cover de Hotel California, e dizendo que era o conjunto mais brega do ano, de todas as edições brasileiras de Acústico MTV. Tempos bons aqueles de Piores Clipes do Mundo. No ano seguinte, 2003, eu pagava uns colegas da escola que tinham computador com internet (discada) para gravar CDs para mim, com albuns e músicas de bandas que eu assistia naquelas playlists temáticas de domingo pela manhã. Lembro que uma vez pedi uma lista de músicas de Jacksons 5 e me devolveram um cd cheio de versões de todas aquelas músicas, só que tocadas por Sandy & Junior. Ninguém me levava a sério na época da escola. Só a MTV.  Na minha cabeça, claro.

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Aprendi muito com o Jairo Bauer e a Penélope Nova no Peep MTV. Enquanto meus amigos reduziam o volume ao mínimo possível para assistir o Telecine Privé na Band, eu fazia o mesmo para ver e escutar o Peep. Acho que eu cresci tão desencanada com sexo por causa desses programinhas que a MTV fazia. Lembro da situação, eu no início da adolescência, sem nunca ter nem beijado ainda, escutando conselhos do Dr. Jairo para um homem de trinta anos com problemas de ejaculação precoce. Foi um curso e tanto.

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A primeira vez que eu falei em público foi em uma versão do Fica Comigo MTV, em 2003, que fizemos na escola, e eu fui escolhida para apresentar o tal programa – que era uma atividade da aula de teatro. Ouros grupos tiveram que representar outro programas, a maioria da Rede Globo, e eu lembro de comentar na epoca que a minha interpretação ia ser a melhor de todas porque meu sotaque era igual ao da Fernanda Lima. Nossa, como eu me diverti naquela época do Fica Comigo do Paraguai, como a gente chamou! Fizemos mais de uma edição, e no final, ninguém tinha coragem de beijar ninguém no palco da escola, e eu ficava com cara de idiota com aquele microfone na mão, contando piada. Inclusive, anos depois, no Beija Sapo MTV, tivemos os primeiros beijos gays da televisão brasileira – e eram ao vivo. MTV sempre à frente.

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Vivi muitos momentos com a MTV. Ela estreiou no Brasil no mesmo ano em que eu nasci, e eu acho que se hoje nós temos muito leitores da Vice na minha faixa etária, isso se deve muito aos programas daquele período 2000~2005, quando a MTV não tinha nada a perder e ainda era realmente contestadora. Na verdade, nem sei se ela deixou de ser. Porque depois dessa época, nos últimos anos, enquanto nós tinhamos Zorra Total na Globo para assistir, e CQC na Bandeirantes como alternativa, a MTV estava fazendo Furo MTV e os programas excelentes do Adnet. Até nessa época de foco no humor de qualidade, a MTV contestou os formatos. Inclusive, a MTV mudou tanto quanto a gente mudou ao longo da vida, cresceu com a gente, nos educou, enquanto nós também a educamos. Ela sempre foi um reflexo da juventude da época.

É uma história bonita. Eu espero que com cinquenta anos eu sente para assistir a MTV e veja o mesmo formato jovem e contestador da época dos meus 12 e dos meus 22 anos. Mesmo que o “contestador” de cada época seja diferente da outra – e por que não seria? Keep calm, a vida continua. O mundo não parou na sua adolescência.

A MTV não acabou propriamente, mas ela saiu da TV aberta. Eu lamento pelas pessoas que ainda não podem ter internet banda larga e televisão à cabo – que foi o meu caso quando eu era pré-adolescente – porque elas não vão ter nenhuma alternativa de programação na sua tv.
Só isso.

3 comments

  1. metheoro · October 1, 2013

    Eu super te entendo, lá no texto eu falei sobre DirecTV, mas o bem da verdade é que a TV por assinatura chegou lá em casa e ficou até, mais ou menos, 2000.

    Depois disso meu pai não podia pagar mais… foi bem na época que a emissora começou a passar como aberta na TV Recife, canal 7. Pegava mal… muito mal. Mas eu ficava lá assistindo firme e forte. Teve uma época, que coincidiu muito com a época que eu era extremamente fanático pelo teatro mágico, de não gostar mto da mtv (época das K-sis no disk), mas eu ainda assistia a Penélope e o Jairo. A MTV foi o primeiro canal que eu vi gays serem retratados como pessoas normais e não exteriotipadas…

    Como falei no facebook, como ferramenta de autoafirmação ela foi imprescindível. Esta nova geração já tem mais acesso a tv por assinatura… vamos ver como será a nova. Bjs

    • garotacocacola · October 1, 2013

      Exatamente. Eu to bem mais curiosa para saber como a nova vem por aí, sabe?
      Inclusive, acho que temos um grande e novo mercado para explorar ;)

  2. Fernando F · October 1, 2013

    A MTV foi muito importante antes também. Foi ela que fez as rádios “comerciais” tocarem rock. Aqui em Porto Alegre, a partir de 91 quando a mtv começou a diferença foi sentida. Sei que o grunge, Nirvana, etc foi um fenômeno mundial, mas a mtv fez o Brasil estar ligado na cultura mundial (ou vá lá, americana) no momento em que as coisas estavam acontecendo.
    Aí tinhamos a Atlantida FM tocando Nirvana, Pearl Jam, Pantera(!!) e um monte de bandas rock. E isso deve ter acontecido no Brasil inteiro. Não fosse a “necessidade” criada pela MTV, rock nunca teria tocado nas rádios mais comerciais. Bom, depois o tempo passou e a MTV tocou até Axé (sem fazer juizo de valores, e dizer que uma música é melhor que outra, mas o foco inicial da MTV era o rock, ou o pop-rock).
    Esse lado de “vanguarda” de direitos civis (gays, negros, etc) a MTV sempre teve, desde o início, alinhada com a programção dos EUA. Antes do YO MTV RAPs, qual programa de música negra tinha na tv no Brasil.
    Sem falar nos Acústicos, na força pras bandas brasileiras, na divulgação de estilos diferentes (indie, metal, etc) a importância da MTV foi muito grande.
    A minha geração ficou “chateada” com a nova MTV, a partir do final dos 90, que “não tocava mais música”, mas dá pra ver pelo seu texto que a MTV também foi importante pra geração seguinte.