Este blog não é poético. Nem nunca foi essa a pretensão em tê-lo; bem pelo contrário. Vamos deixar a poesia para os tumblr’s da vida.

Mas houve uma vez. Uma vez em São Paulo. Em que eu estava sozinha, meio abandonada pelo mundo, às 23h57 numa estação de metrô. Tinha acabado de chegar ali correndo, os cabelos voando pelos lados, a roupa esvoaçando pelas escadas que desciam para o subsolo. Meia-noite a estação fecharia e eu ficaria na rua até as 5h30 do dia seguinte, ou pagaria uns 200 reais de táxi para voltar para o lugar onde eu estava hospedada, do outro lado da cidade. E você sabem que quando a gente diz “do outro lado da ciadade”, em São Paulo, não estamos brincando.

Mas então teve essa vez, que eu corri pela Vila Madalena porque a estação fecharia para mim em três minutos. A noite não estava de todo fria, era janeiro, mas eu usava uma jaqueta jeans listrada, com um pet do Jack Skellington costurado à mão no lado direto. Tenho mania de sentir frio, em qualquer época do ano, quando me sinto à vontade. Pode parecer estranho, mas é verdade. Cai a temperatura do meu corpo, e fico com sintomas de desmaio. Uma vez fui no cardiologista porque andava desmaiando muito… ele me disse que era emocional, e me deu um cartão de um psiquiatra. Nunca mais desmaiei do nada depois desse dia. Nem fui no tal psiquiatra. E agora, quando tu está perfeito, quando eu me sinto livre, quando era para meu coração bater acelerado como o de todas as outras pessoas no mundo… eu simplesmente tenho queda de pressão, fico branca, tenho calafrios, e dou os sorrisos mais bonitos da minha vida.

Esse momento em que eu cheguei na estação e fiquei parada esperando o metrô, tomando fôlego depois da correria, foi um dos momentos mais epifânicos da minha vida. Tentei entender poquê eu estava sentindo frio enquanto fazia um calor de quase 30ºC por ali. Pensei que eu deveria estar me preocupando em ter sido tão irresponsável em sair tão tarde do bar onde eu estava. Pensei que deveria estar assustada, porque estava num lugar onde nunca havia estado antes na vida, era quase meia-noite, e eu andava de vestido curto solto, enquanto o vento brincava nas minhas pernas. Pensei que eu deveria estar apavorada, visto que estava numa cidade absurdamente grande, longe da minha família, e onde meus amigos jamais lembrariam de mim numa sexta a noite se não fosse para me chamar para uma festa ou algo que o valha. Ou seja, ninguém estava preocupado se eu chegaria em casa bem ou mal. Ninguém ligaria para mim desesperadamente a 1 da manhã se eu ainda não tivesse dado sinal de vida. Ninguém estava pensando em mim naquele momento. Era eu e a noite, eu e o metrô, eu e o vento, eu e a sorte. Eu e o perigo. Eu… e eu mesma.

Simplesmente ri. Ali, sozinha. Porque era isso que eu buscava há muito tempo e não sabia o que era.

Liberdade.

Me senti leve. Senti que eu poderia entrar dançando no metrô se eu quisesse.

Desci em Jabaquara tarde da noite. Sai das entranhas da terra, onde era a estação, e respirei fundo o ar da noite quando pus a cabeça para fora daquele buraco, enquanto subia as escadas. Pelos meus lados só enxergava perigo. Só pessoas mau-encaradas, meninos bebendo cachaça num canto, velhos falando obscenidades para as poucas mulheres que passavam, taxistas conversando com os braços cruzados repousando em cima de suas enormes panças de cerveja. Deixei a sensação de perigo tomar conta de mim por apenas um segundo. Senti a ameaça passar. Segui andando firme até pegar um táxi. A sensação de liberdade não me abandonou um segundo sequer.

Foi aí que eu descobri o que eu ando precisando ultimamente.

Essa tal liberdade. Genuína.

Não a liberdade adolescente que a gente sonha quando pensa em sair da casa dos pais e ser independente. Não a liberdade de andar nu na própria casa. Não a liberdade de poder trazer para dormir no seu quarto quem você bem-entender, a qualquer hora. Não a liberdade de lavar a louça suja hoje ou semana que vem. Não a liberdade de dormir até tarde no sábado ou não. Não.

A liberdade que eu sempre quis, eu descobri agora. É a liberdade de saber que não existe ninguém me esperando acordado até tarde da noite. É a liberdade de saber que não há ninguém mais com expectativas diárias em cima de mim. É saber que eu não encomodo ninguém com a minha presença, ou minha ausência.

É a liberdade de chegar na estação de metrô três minutos antes de fechar, rindo, sozinha, sabendo que a única pessoa a quem eu devo satisfações sobre isso, sou eu mesma.

Tá chegando a hora.

10 comments

  1. Cecilia · February 19, 2011

    Tive uma sensação de deja vu lendo seu texto. E você descreveu perfeitamente, é a consciência de que (pelo menos naquele momento) não tem ninguém te esperando nem vai te cobrar nada, então correr o risco é meio inebriante, e ao mesmo tempo parece que nem os perigos vão te atingir, ou se te algo acontecer, tem uma coisa que ninguém pode roubar.

    Essa noite aí é aquela no Platibanda?

    Saí de lá por último e resolvi pegar um táxi fora do miolinho da Vila. A Cris queria que eu fosse pra casa dela chamar um táxi e eu não quis, saí caminhando. Tem uma coisa absolutamente louca em caminhar à noite, quando a maior parte das pessoas está dormindo. Essa coisa da liberdade. Aqui em casa também não tinha ninguém me esperando.

    Mas quando eu cheguei à avenida não tinha nada funcionando, nem passava carro, e eu fiquei meio em pânico, sabe? Deu uma certa sensação de anti-liberdade, deu medo, coisas da maturidade. Passou um táxi e eu entrei, mas ainda pensando que podia ser uma pessoa perigosa.

    Beijos

    • garotacocacola · February 19, 2011

      Ai, ceci, já te disse que está sendo a melhor anfitriã do mundo? =D

    • garotacocacola · February 19, 2011

      E sim, isso aconteceu na noite que a gente fpo no Platibanda!

  2. Cecilia · February 19, 2011

    Tive uma sensação de deja vu lendo seu texto. E você descreveu perfeitamente, é a consciência de que (pelo menos naquele momento) não tem ninguém te esperando nem vai te cobrar nada, então correr o risco é meio inebriante, e ao mesmo tempo parece que nem os perigos vão te atingir, ou se te algo acontecer, tem uma coisa que ninguém pode roubar.

    Essa noite aí é aquela no Platibanda?

    Saí de lá por último e resolvi pegar um táxi fora do miolinho da Vila. A Cris queria que eu fosse pra casa dela chamar um táxi e eu não quis, saí caminhando. Tem uma coisa absolutamente louca em caminhar à noite, quando a maior parte das pessoas está dormindo. Essa coisa da liberdade. Aqui em casa também não tinha ninguém me esperando.

    Mas quando eu cheguei à avenida não tinha nada funcionando, nem passava carro, e eu fiquei meio em pânico, sabe? Deu uma certa sensação de anti-liberdade, deu medo, coisas da maturidade. Passou um táxi e eu entrei, mas ainda pensando que podia ser uma pessoa perigosa.

    Beijos

    • garotacocacola · February 19, 2011

      Ai, ceci, já te disse que está sendo a melhor anfitriã do mundo? =D

    • garotacocacola · February 19, 2011

      E sim, isso aconteceu na noite que a gente fpo no Platibanda!

  3. Marília · February 19, 2011

    Flor,
    quase chorei lendo teu post de tão lindo. De tão libertário. De tão genuíno, espontâneo. Bom, você é genuína e espontânea, né? Acho aliás, que é a pessoa mais genuína e espontânea que já conheci, além de uma fofa.

    Quando eu tinha 18 anos, no carnaval de 2005, tinha acabado de entrar na Unicamp e acabado de terminar um namoro de 2 anos daqueles bem deliciosos da adolscência, que fazem a gente pensar que são os únicos que vão rolar na vida. Terminei justamente no momento em que saquei: peraí, eu não quero só ficar com esse cara tendo essa relação e essa vida, tenho 18 anos, caramba! Doeu muito, foi triste, eu fiquei mal, ele ficou mal, enfim. Foi importante.

    Fato é que naquele carnaval uns amigos me convidaram pra vijar pra Ilha do Sono, que fica no caminho de SP a Paraty. Só dá pra chegar de barco ou pela trilha a pé. Chovia pra cacete e fomos a pé pela trilha, pra não gastar o dinheiro e barco e pra curtir o pedacinho de mara atlântica ali. Vale dizer que não era o meu grupo de amigos superíntimos nem nada. Eram amigos que eu conhecia e tal mas com quem não tinha aqueeeela intimidade. No primeiro dia não consegui dormir, chorei muito, tive uns momentos catárticos acionados pela falta de conforto (água sem aquecimento pro banho, não havia luz, energia elétrica não estava funcionando, chovia pra cacete e o mar estara bravíssimo e “sujo”). Enfiei na cabeça que tinha que partir.

    No dia seguinte fui conversar com os barqueiros pra saber se algum deles ia atravessar. Todos disseram que não iam atravessar pois o mar estava muito bravo. Então surge um carinha falando que ia atravessar. Mesmo com o mar bravo. Na hora marcada colocamos minha bagagem no barco e perguntei se devia colocar o colete salva-vidas. Ele me disse que não, pois havia chance do barco virar e aí eu podia ficar presa embaixo do barco sem conseguir nadar pra fora por causa do colete.

    Eu devia estar com medo de morrer. Eu estava ali no barco com um cara desconhecido e esquisito, eu não tinha nem pra onde ir quando saísse dali, não sabia onde ficava o ônibus mais perto e nem pra onde esse ônibus me levaria. Celulares não funcionavam e ninguém conseguia me achar ali onde eu estava.

    Mas quando o barco partiu senti uma das melhores sensações da minha vida. Essa liberdade tão genuína de só estar consigo mesma. Foi delicioso. Continuei depois da travessia, me sentindo maravilhosamente bem. E sabe que quando estamos bem as coisas vão conspirando… Daí que tinha um ônibus saindo pra Paraty, em Paraty tinha uma amiga da família que me hospedou, fiquei sozinha no carnaval, escrevendo, lendo, fingindo que a cidade em festa não existia. Já tinha ido pra lá antes e meu objetivo ali não era ver os pontos turísticos. Fui feliz, sabe?

    Acho que é isso; fui feliz. Você foi feliz também nessa hora.

    Seja bem vinda, querida,
    à minha cidade e à vida adulta ;)

    • garotacocacola · February 19, 2011

      Ai, Marília, que lindo. Fiquei me controlando para não chorar aqui com o teu relato, porque né, tô aqui no horário de almoço, mas tô no trabalho.
      E é bem assim mesmo, a gente sente aquela adrenalina e nem tem como explicar. Ai ai. Que delícia.

  4. Marília · February 19, 2011

    Flor,
    quase chorei lendo teu post de tão lindo. De tão libertário. De tão genuíno, espontâneo. Bom, você é genuína e espontânea, né? Acho aliás, que é a pessoa mais genuína e espontânea que já conheci, além de uma fofa.

    Quando eu tinha 18 anos, no carnaval de 2005, tinha acabado de entrar na Unicamp e acabado de terminar um namoro de 2 anos daqueles bem deliciosos da adolscência, que fazem a gente pensar que são os únicos que vão rolar na vida. Terminei justamente no momento em que saquei: peraí, eu não quero só ficar com esse cara tendo essa relação e essa vida, tenho 18 anos, caramba! Doeu muito, foi triste, eu fiquei mal, ele ficou mal, enfim. Foi importante.

    Fato é que naquele carnaval uns amigos me convidaram pra vijar pra Ilha do Sono, que fica no caminho de SP a Paraty. Só dá pra chegar de barco ou pela trilha a pé. Chovia pra cacete e fomos a pé pela trilha, pra não gastar o dinheiro e barco e pra curtir o pedacinho de mara atlântica ali. Vale dizer que não era o meu grupo de amigos superíntimos nem nada. Eram amigos que eu conhecia e tal mas com quem não tinha aqueeeela intimidade. No primeiro dia não consegui dormir, chorei muito, tive uns momentos catárticos acionados pela falta de conforto (água sem aquecimento pro banho, não havia luz, energia elétrica não estava funcionando, chovia pra cacete e o mar estara bravíssimo e “sujo”). Enfiei na cabeça que tinha que partir.

    No dia seguinte fui conversar com os barqueiros pra saber se algum deles ia atravessar. Todos disseram que não iam atravessar pois o mar estava muito bravo. Então surge um carinha falando que ia atravessar. Mesmo com o mar bravo. Na hora marcada colocamos minha bagagem no barco e perguntei se devia colocar o colete salva-vidas. Ele me disse que não, pois havia chance do barco virar e aí eu podia ficar presa embaixo do barco sem conseguir nadar pra fora por causa do colete.

    Eu devia estar com medo de morrer. Eu estava ali no barco com um cara desconhecido e esquisito, eu não tinha nem pra onde ir quando saísse dali, não sabia onde ficava o ônibus mais perto e nem pra onde esse ônibus me levaria. Celulares não funcionavam e ninguém conseguia me achar ali onde eu estava.

    Mas quando o barco partiu senti uma das melhores sensações da minha vida. Essa liberdade tão genuína de só estar consigo mesma. Foi delicioso. Continuei depois da travessia, me sentindo maravilhosamente bem. E sabe que quando estamos bem as coisas vão conspirando… Daí que tinha um ônibus saindo pra Paraty, em Paraty tinha uma amiga da família que me hospedou, fiquei sozinha no carnaval, escrevendo, lendo, fingindo que a cidade em festa não existia. Já tinha ido pra lá antes e meu objetivo ali não era ver os pontos turísticos. Fui feliz, sabe?

    Acho que é isso; fui feliz. Você foi feliz também nessa hora.

    Seja bem vinda, querida,
    à minha cidade e à vida adulta ;)

    • garotacocacola · February 19, 2011

      Ai, Marília, que lindo. Fiquei me controlando para não chorar aqui com o teu relato, porque né, tô aqui no horário de almoço, mas tô no trabalho.
      E é bem assim mesmo, a gente sente aquela adrenalina e nem tem como explicar. Ai ai. Que delícia.