aquele de quando o mendigo morreu na minha frente atrapalhando o trânsito

Depois de ter morado um tempo do ladinho da Cracolândia, ou meio que dentro dela, mais precisamente na Alameda Barão de Limeira, eu sempre me sinto intimamente ligada àquele lugar sombrio. De alguma forma eu fui embora da Cracolândia, mas a Cracolândia não saiu de dentro de mim.

O dia que eu arrumei as malas e segui para me mudar, rumo a região dos Jardins, perto da av.Paulista, meu primeiro sentimento foi de alívio. Eu precisava morar num lugar mais seguro e menos depressivo. Mas dar às costas aquilo tudo mexeu comigo. Não é muita gente que sabe, mas houve um dia em que cheguei do trabalho, ali pelas 20h30 de uma noite fria, e encontrei um arremedo de vida humana agonizando na porta do meu prédio. Os moradores entravam no prédio levantando os pés para saltar por cima da criatura e entrar pela porta, como se ele fosse um pedaço de papelão atrapalhando o caminho. Saia sangue da sua boca, e ele se sacudia em convulsões. Mais um nóia atrapalhando o trânsito na calçada tsc tsc, era a reação geral. Naquele dia eu não pude ajudar aquela vida, fui impedida pelas pessoas na volta, pela falta de recursos,  pela polícia que se omitiu, pela sociedade conivente, pela vida, por tudo. Aquela pessoa morreu sem ninguém ter lhe estendido uma mão, um copo d’água. Todo mundo deu de ombros, mais um escombro para juntarem no meio do lixo do dia seguinte.

Aquilo mudou minha vida completamente. O mendigo morreu e eu morri um pouco junto com ele.

Uma das coisas que eu precisava para continuar morando lá era me desligar daquelas coisas que via diariamente. Eu acho que com o tempo conseguiria, eu sou fria o suficiente para chegar lá. Não foi o fato de não conseguir me desensibilizar daquele mundo; foi o fato de que eu não quis fazer isso. O dia que uma vida fosse menos importante para mim do que qualquer outra coisa, eu não seria mais eu mesma. Eu seria algo pior do que aquelas própria sub-vidas que vagavam na volta do meu prédio, como zumbis, eu seria só mais um corpo sobrevivendo por aí. Eu fui embora do centro de São Paulo, mas meu coração ficou lá. Minha integridade moral como ser humana ficou comigo, mas a vergonha por não saber como ajudar aquelas pessoas me assombra todos os dias em que eu chego na minha casa nova e deito a cabeça no meio dos meus três confortáveis travesseiros, em cima da minha cama grande, com meu gostoso edredon colorido.

Eu não me preocupo em achar causas para o fato daquelas pessoas chegarem aquele estado lastimável, e tampouco as culpo por terem fumado o primeiro cachimbo de crack. Não me importo nem um pouco sobre se elas merecem a miséria em que vivem ou não. Eu me preocupo é com a existência delas e o fato de que aquela desgraça toda não afeta em nada os sentimentos das outras pessoas que apenas fecham os olhos e vão para casa naquele passo apressado, que esperam que todos os noias um dia morram subitamente para que o centro de São paulo fique mais bonito outra vez. Para que o Arouche volte a ser o final da Boca do Luxo, e não da Boca do Lixo.

Tenho muito medo do descaso com que tratam esse grande problema social. Afinal, não é apenas uma massa disforme de pessoas fora de si e potencialmente perigosas; são pessoas, oras. Um dia elas nasceram, de alguma forma, também tem seu lugar ao sol.

Porra, são pessoas.

Elas tem tantos desejos, anseios, e medos, quanto a gente. A gente que tem vinte anos e mora num lgar maneiro, tem um empreguinho mais ou menos, e quando leva um pé na bunda sai para a balada para encher a cara, ou usar alguma droga ilícita como válvula de escape para esquecer as desgraças da vida por uma noite. E acordar no dia seguinte de ressaca, para a vida que continua. A diferença é que quando você nasce na rua, ou na favela, e vai afogar as mágoas da vida injusta, você não tem dinheiro para entrar na FunHouse e tomar uns drinks. Você não tem roupa nem estilo, e nem 20 reais sobrando, para sentar num barzinho da Augusta e ficar lá até a hora do metrô abrir para voltar para casa. Suas mágoas são afogadas de um jeito muito menos digno. A sua saída para levantar uma graninha a mais não é fazer um freelancer.

Pessoas que convivem comigo, e aplaudem a ação da polícia da Cracolândia agora, não conseguem olhar para si mesmos e ver a sorte que tem. Tampouco se sentem envergonhados de dizer que aquelas pessoas estão assim porque quiseram, por que merecem. Na verdade, a perpetuação da meritocracia aqui no Brasil é uma pedra que tranca nosso próprio desenvolvimento. Meu pai nasceu muito pobre, viveu num morro em que a maioria dos seus amigos morreu ou foi preso, e hoje ele diz que se orgulha por ter seguido o caminho mais difícil e ter merecido o sucesso que a vida lhe prporcionou – casa própria, carro, etc, luxos que ele pensou que nunca teria. Ele diz que mereceu, que lutou por isso, e eu não discordo. Mas o mundo dá oportunidade para 10 000 crianças vencerem dessa maneira ou de cada 1000 apenas 5 tem espaço para mudar de casta?

Meu pai ralou para conseguir bicos de carregador e engraxate quando era pivete. Ou seja, não tinha vaga de carregador ou engraxate para todos os pivetes da vila dele. O que eles iam fazer para juntar o próprio dinheiro, ora bolas? É sobreviver ou morrer de fome. E é isso que meu pai não consegue enxergar, é isso que meus amigos também não conseguem.

O país não tem espaço para empregar milhões de menores aprendizes, então um seleto número terá a oportunidade de tentar vencer um pouco. uns vão conseguir, outros não. E ainda tem aqueles que não vão ver nem a COR da oportunidade – esses, infelizmente, são a maioria.

Afinal, eu acredito nas pessoas. Mas como ser justo num mundo tão cruel?

A polícia na Cracolândia vem fazendo a limpa geral que todos estavam pedindo. Mas dali, para onde vão aquelas pobres-almas?

Limpar a porra do lugar não adianta merda nenhuma, se quer saber. Uma grande ação social serviria. Eu não sou socióloga, voluntária ou assistente social. Sou muito ignorante sobre as soluções que poderíamos usar para trazer essas pessoas para a vida. A minha vontade era d ser rica, comprar um sítio, e botar todo mundo lá para se reabilitar, aprender a plantar, blablabla a paz mundial blablablá. Sabe, minha opinião é muito piegas, e eu não sei como ajudar as pessoas na prática… Mas eu sei, pelo menos, que do jeito que estão fazendo é muito errado.

But… I have a dream.

Aquele mendigo da porta do meu prédio morreu. De alguma maneira, senti que um dia vou precisar ressucitá-lo um pouquinho dentro de mim. Só ainda não sei como.

16 thoughts on “aquele de quando o mendigo morreu na minha frente atrapalhando o trânsito

  1. Parabéns pelo texto!
    Eu tbm me preocupo muito com toda essa situação, e tbm nao sei como ajudar. O foda é o soco na cara que é encarar essa situação, que as vezes acaba levando as pessoas a nao querer enxergar, ou nao passar perto, pra nao serem atingidas… Eu adoraria morar no centro, mas nao saberia lidar com essa realidade bem na porta de casa. Ficaria deprimida ao entrar debaixo do meu edredon colorido, me sentindo até culpada, sem saber como ajudar

  2. Parabéns pelo texto!
    Eu tbm me preocupo muito com toda essa situação, e tbm nao sei como ajudar. O foda é o soco na cara que é encarar essa situação, que as vezes acaba levando as pessoas a nao querer enxergar, ou nao passar perto, pra nao serem atingidas… Eu adoraria morar no centro, mas nao saberia lidar com essa realidade bem na porta de casa. Ficaria deprimida ao entrar debaixo do meu edredon colorido, me sentindo até culpada, sem saber como ajudar

  3. Ninguém merece nada, vc tem toda a razão. Todas as pessoas merecem ser e ter e viver, mas nem todas recebem isso. Aqui no trabalho aconteceu de um funcionário que é alcólatra começar a desenvolver paranóia. Tentamos ajudar mas talvez estivesse fora de nosso alcance. Chegou o momento que foi chamada a família dele pois ele precisava ser clinicado para que ele pudesse receber dinheiro da caixa como inválido pois ele já não estava em condições de trabalhar. A empresa estava sem carro para levá-lo junto com suas duas irmãs ao hospital então foi pedido ao unico funcionário com carro que levasse eles. A resposta foi não pois o rapaz estava indignado que o seu colega de trabalho iria continar recebendo dinheiro porque havia ficado “louco” de tanto beber. Ele também sabia que seu colega teve uma infância dura na favela, perdeu os pais cedo e aos 33 aparentava 40 e tantos, sem amigos e morando com as irmãs diaristas. O rapaz indignado teve um pouco mais de estudo e oportunidade, mas trabalhou de empacotador de mercado e nunca pode crescer mais que o cargo atual onde executa um serviço técnico simples. Aí que entra a meritocracia….

  4. Ninguém merece nada, vc tem toda a razão. Todas as pessoas merecem ser e ter e viver, mas nem todas recebem isso. Aqui no trabalho aconteceu de um funcionário que é alcólatra começar a desenvolver paranóia. Tentamos ajudar mas talvez estivesse fora de nosso alcance. Chegou o momento que foi chamada a família dele pois ele precisava ser clinicado para que ele pudesse receber dinheiro da caixa como inválido pois ele já não estava em condições de trabalhar. A empresa estava sem carro para levá-lo junto com suas duas irmãs ao hospital então foi pedido ao unico funcionário com carro que levasse eles. A resposta foi não pois o rapaz estava indignado que o seu colega de trabalho iria continar recebendo dinheiro porque havia ficado “louco” de tanto beber. Ele também sabia que seu colega teve uma infância dura na favela, perdeu os pais cedo e aos 33 aparentava 40 e tantos, sem amigos e morando com as irmãs diaristas. O rapaz indignado teve um pouco mais de estudo e oportunidade, mas trabalhou de empacotador de mercado e nunca pode crescer mais que o cargo atual onde executa um serviço técnico simples. Aí que entra a meritocracia….

  5. parabéns pelo seu texto!

    eu também sou contra o endeusamento da meritocracia. para mim é só mais um embuste moderno que serve para as pessoas desperdiçarem suas vidas.

    The hideous thing about meritocracy is it tells you that if you’ve given life your all and haven’t got to the top you’re thick or stupid. Previously, at least, you could always just blame the class system. —Laurence Taylor

  6. parabéns pelo seu texto!

    eu também sou contra o endeusamento da meritocracia. para mim é só mais um embuste moderno que serve para as pessoas desperdiçarem suas vidas.

    The hideous thing about meritocracy is it tells you that if you’ve given life your all and haven’t got to the top you’re thick or stupid. Previously, at least, you could always just blame the class system. —Laurence Taylor

  7. Coisas que as pessoas deveriam fazer na vida que poderiam torná-las muito melhores e conseguentemente o mundo … conviver com pobres e participar da política.

    Infelizmente, a cada dia que passa as pessoas de classe sociais diferentes estão cada vez mais distantes, e a população continua despolitizada como sempre.

  8. Coisas que as pessoas deveriam fazer na vida que poderiam torná-las muito melhores e conseguentemente o mundo … conviver com pobres e participar da política.

    Infelizmente, a cada dia que passa as pessoas de classe sociais diferentes estão cada vez mais distantes, e a população continua despolitizada como sempre.

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