relacionamentos: a falta de conversa

Ana gostava de Vinícius. Eles ficaram, transaram, e dois meses depois começaram a namorar. Vinícius tinha aquela mania ridícula de falar mal da roupa das pessoas na rua. Começou discretinho, rindo dos óculos rayban dos hipsters-wannabe que andavam pela Augusta na sexta a noite, e depois passou a falar aos gritos dos chapéus das blogueiras-de-moda que passeavam na Benedito Calixto sábado comendo pastel de feira. Falava do aparelho do cobrador de ônibus, e da saia curta que a amiga da Ana vestiu para ir com eles naquela festa. Ela odiava gente que cuidava da vida dos outros, e no início achava engraçadinho o que ele fazia, ignorava. Era tão bom de cama que não valia a pena pensar sobre aquilo.
Ao fim de seis meses ela já não o suportava. Quando ele começava a falar sobre alguém na rua, ela fechava a cara. Ficava emburrada. Ele perguntava o que estava contecendo, e ela respondia solene “Nada”.
Um dia eles chegaram em casa, ele em fogo, ela meio cansada. Ele foi tirando a roupa dela com vontade. Ela só conseguia ouvir a voz dele dentro da mente dela, naquele tom irritante falando das roupas alheias, de desconhecidos e de amigos próximos, e de como eram cafona. De repente ela parou a mão dele, que já estava botando a alça do sutiã pro lado, olhou pra cara do pobre Vinícius e disse: “Não dá mais, está tudo terminado. Não te aguento mais”. Arrumou o sutiã, botou o vestido. Deixou ele a olhando com cara de quem não entendeu nada, um “por quê?” não dito saindo da boca aberta.
E Ana foi embora em passos decididos.

//Sim, isso é um conto. Baseado em fatos reais ou não, quem sabe?
Talvez eu faça uma série chamada “Rapidinhas para ler no metrô“. Feliz dia dos namorados atrasado, folks!

 

 

aquele da manutenção

Pequeno aviso técnico:

Estou mudando de hospedagem e o blog vai ficar fora do ar pelo sábado (hoje, dia 9 de junho), não sei por quanto tempo.

Migrações de servidor web sempre são feitas durante a madrugada, e sendo uma pessoa que trabalha na área, passei muitas noites em claro fazendo essas migrações e correndo para fazê-las no menor tempo possível, etc etc. Agora, no meu próprio blog, eu faço a hora que eu quiser: ou seja, no meio do sábado. :D

Reclamem no PROCON dos blogueiros rebeldes.

 

Beijos.

 

edit.20.junho.2012

atenção: migração bem-sucedida.

agora, devolta ao buteco.

aquele em que vi a letra escarlate em mim

Nunca foi fácil dizer para as pessoas que você é feminista. Uma vez li o livro Depois daquela Viagem, e em algum trecho a autora, portadora do vírus da AIDS, no auge do seu sofrimento por não contar para ninguém sobre sua doença-tabu, olha para sua amiga jamaicana, negra, com certo ar de ressentimento. E ela pensa (mais ou menos assim): “gostaria que o preconceito que as pessoas tem por mim estivesse estampado na minha pele, para todos verem”. Ela não queria dizer com todas as letras que era aidética porque havia (há?) um preconceito referente aquilo. As pessoas a tratariam diferente depois que ela contasse. Ela sofreria o tratamento diferenciado ao tentar um emprego ou almoçar na casa de conhecidos. Assim como todas as pessoas negras sabem, desde crianças, que existe um preconceito velado – em menor ou maior escala, e dependendo do lugar – contra elas. Mesmo que sutil. A diferença é que elas não podem esconder a cor da sua pele, e no caso da menina com aids, ela poderia escolher se contava ou não. Ela poderia escolher se lidava com a carga social e psicológica com que as pessoas reagiriam e a tratariam. Ela teria que encarar o mundo de volta com sua letra escarlate estampada no seu peito.
Atualmente, minha letra escarlate é ser mulher. Feminista.