aquele sobre as escolhas da vida

 

Comprei um daqueles rímel de embalagem amarela, da Maybelline. Sempre via o povo fazendo um puta alarde sobre esse produto, um dia resolvi investir 22 reais naquilo para começar a adquirir maquiagem de qualidade por aí – até então eu sempre tive um grande acervo de make: produtos que minhas amigas compravam e nao gostavam, e eu acabava ganhando, e amostras grátis que minha mãe ganhava na época que era revendedora da Avon, ou mesmo itens com defeito que as clientes dela devolviam.
Ia tudo parar na minha cara.
Quando usei o tal rímel de embalagem amarela – não, o rímel mesmo era preto, da cor dos meus cílios – eu detestei. Era muito espesso, grudento. Entrei na internet e vi que tinha todo um esquema para usar o rímel do modo adequado. Desisti. Abri um dos velhos tubos da Avon – que deve estar até fora da validade – e voltei a aplicar aquela capa temporária para cílios, fininha, bem distribuída, que escorria pelo fio  sem muitos dramas. Não deixava aquele aspecto de cílios enormes como o Maybeline, mas ainda sim, ficava bonitinho. E era infinitamente mais prático.
Em abril fui em um evento em Buenos Aires, e perguntei se as pessoas queriam coisas específicas de lá. Minha chefe pediu umas maquiagens maneiras que eu comprei no dutty-free, e aproveitando que eu estava no setor das maquiagens maneiras, testei alguns lápis na parte de fora da minha mão, fazendo risquinhos. As cores eram incríveis. Eu, que até hoje só tinha lápis preto, marrom, azul e branco (mas só uso o preto e o azul), fiquei maravilhada com os efeitos furta-cor e as cores vibrantes de várias opções que tinham ali. Daí quando fui tirar os risquinhos da mão, esfregando uma mão na outra, eis a surpresa: os risquinhos não saiam. Passei um pouco de saliva, e nada. Procurei o vendedor. “Ah, você precisa tirar com demaquilante”. What? Vou ter que comprar um vidrinho de uma versão engraçada de um solvente para o rosto, caríssimo, e passar todo o santo dia quando voltar do trabalho toda vez que tiver que tirar a maquiagem? Poxa, com o lápis da Avon era so passar o dedo e saía. Depois uma lavada de água pura da torneira, e voilá, sem maquiagem. Desisti de comprar os lápis de cores maravilhosas.

Muitas vezes eu ouvi das amigas, da mãe, das tias, que eu deveria me cuidar mais e usar maquiagens melhores. Mas o que são maquiagens melhores? Na minha concepção, uma maquiagem que gruda no meu olho e não sai nem com água, vai fazer mais estragos na minha pele do que aquele lápis baratinho de 6 reais da Avon, que quando eu uso preciso ficar cuidando para não coçar o olho e retirar o traço fino da pálpebra. Eu sei que uma galeria prioriza aquilo que dura mais tempo na pele, tipo quando você vai para balada suar, você normalmente não quer que a maquiagem saia do seu rosto facilmente. No meu caso, isso nunca importou. Tenho inúmeras fotos de rosto de cara lavada em balada, onde o lápis, o rímel e o batom já saíram há horas, e no meu rosto ficou só o rubor natural que adquiri dançando, e o brilho do suor escorrendo – um rosto nada glamouroso, mas genuinamente alegre. O preço que eu pago por não usar ‘maquiagens boas’ e caras é exatamente esse: minha maquiagem não dura até o fim do dia, e nem da noite. Não adianta o que eu faça, ela não fica. Preciso retocar a todo o momento, e sei disso. Então, sem choro. No donnuts for you.

Levo isso para vida. A questão da maquiagem é uma de muitas que eu penso todos os dias. Semana passada eu postei no facebook algo a respeito da problemática carros x bicicleta no trânsito de São Paulo. Foi o dia em que o metrô entrou em greve, e colapsou a zona leste inteira. Um amigo comentou que a galera jamais ia aderir a idéia de vir do Grajaú à Pinheiros, por exemplo, de bicicleta. Eu concordo com ele. O problema todo é o pessoal que mora a menos de 8km do trabalho e usa carro para fazer o trajeto. As pessoas que realmente precisam, que moram mais afastadas, acabam levando o saldo negativo desse comportamento, e o trânsito gargala naquele “meião” onde se concentra a classe que tem o maior poder aquisitivo, que usa carro sem pensar duas vezes, e os locais onde a maioria da população trabalha. Aí outra amiga entrou em cena – e ela se enquadra nessa categoria de pessoa que mora a menos de 8km do trabalho, nessa região do “meião”, e ainda sim vai de carro – e disse algo mais ou menos como “eu entendi o que vc quer dizer, mas já andei muito de transporte público e hoje em dia não abro mão do meu carro”. Opção dela, respeito-a. Em contrapartida, meu próprio exemplo: quando eu morava e trabalhava no “meião” tinha plenas condições de comprar um carrinho mais ou menos e ir pro trabalho no conforto. Mas odeio trânsito, e além do mais, sabendo do problema do fluxo que citei antes, eu gosto de pensar nas pessoas. Optei pelo transporte público. Mas este também era muito lento e estressante, então, acabei decidindo ir de bike. Deu certo. A escolha foi ótima. Para a saúde, pois eu fazia exercício; para o bolso, porque economizava demais; para a cidade, pois era menos um carro transitando; para o trabalho, porque eu chegava sempre à mil por hora logo cedo de manhã. Enfim, infinitos benefícios. Mas é questão de opção. Eu não acho a minha amiga pior ou melhor que eu. As pessoas escolhem o que é melhor para si.
Se eu não me sinto bem com o trânsito, e sinto que faço parte de um coletivo e é minha responsabilidade melhorar o que me incomoda nesse coletivo, a escolha individual é minha. Assim como é esoclha individual dela pensar apenas no seu próprio umbigo.(Não, não vou entrar no mérito da questão em que pessoas que pensam no próprio umbigo prejudicam a si e a todos, e nunca se ligam disso).

O que eu acho ridículo é ver pessoas que tem essa opção na frente do nariz e reclamam do trânsito. É o mesmo que as minhas amigas que usam os rímels da Maybelline, ou da Mac, reclamando do preço. E é exatamente isso: o preço. Tudo tem um preço.
Ir de bicicleta custava um preço engraçado para mim: às vezes eu não saia do trabalho direto para casa. E aí? Vou chegar no happy hour suada? Encontrar o gatinho descabelada? É, paciência. Incontáveis vezes eu sai na sexta-feira e deixei a bike no estacionamento do trabalho, porque ia direto para a balada. Tinha que voltar no sábado para buscar a bendita.  E olha, não era legal ir até o prédio em que você trabalha no sábado. Outra coisa chata era sempre ter que ir de camiseta reserva, andar com um arsenal de lenço umidecido, desodorante potente, etc, para todos os lugares. E carregar o capacete de ciclista debaixo do braço. Fazer a maquiagem só quando chegava no trabalho, e não em casa, porque saia tudo quando eu pedalava. Pegar chuva em dia que eu tinha reunião no trabalho, era um saco. Etc.

Mas tanto faz, maquiagem ou transporte. Todo mundo tem suas próprias escolhas, e vive do modo que acha mais adequado para si com isso. A minha questão é: você vai ficar reclamando aí das suas opções, ou vai respirar fundo, analisar todos os prós e contras de tudo que andou escolhendo por aí?

Questione a si mesmo, antes de reclamar de algo. Sempre.

 

aquele em que eu pulei o portão para entrar no show

O cansaço da abertura para o diálogo está me matando aos poucos. Ando sempre exausta de ouvir “você é muito radical”, ou mesmo “sua opinião não conta porque você é radical”, é como se não aceitar o status quo automaticamente desqualifique minha opinião para discutir qualquer assunto de interesse público. Desde o preço da gasolina até a composição química do Red Bull.

Quando você levanta bandeiras e assume seu posicionamento – e aqui eu falo principalmente das redes sociais – algumas pessoas nunca param para pensar o quanto você leu, viveu, viu, sentiu e estudou para chegar a conclusão de que aquela causa vale a pena. É como se te subestimassem intelectualmente, ou como você perdesse credibilidade como cidadão com opinião formada a partir do momento em que toma partido de alguma coisa que nem todas as pessoas entendem, ou que a mídia faz um serviço de desinformação a respeito – nesse sentido, para mim, especificadamente na questão do hacktivismo e do feminismo -, assim como te condenam por não ter uma opinião tão superficial e senso-comum como a maioria – aqui falo do vegetarianismo e cicloativismo.

O desconhecido, ao invés de provocar curiosidade e interesse, provoca medo e receio. Nesse caso, quando eu falo de software livre, isso fica muito evidente.

Ontem eu fui assistir um show com entrada gratuita. Aconteceram uma série de coisas chatas na entrada, e a polícia acabou usando gás de pimenta e afastando o pessoal que chegou mais tarde para ver o Franz Ferdinand, lá no festival da Cultura Inglesa. Desisti de esperar e fui embora com os meus amigos. Passando por trás do parque, onde acontecua o show, para ir embora, havia um portão que alguém decidiu testar para ver se estava trancado. E surpresa: o portão abriu. Então aproveitamos e entramos – literalmente! – pelos fundos. Andamos vários metros no mato, no escuro, e pulamos uma cerca de arame de cerca de 1,80m. Poderíamos ter sido presos por invasão de propriedade, mas enfim, na hora eu lembrei que nunca fazia esses vandalismos quando era menor de idade porque morria de medo que meus pais tivessem que responder em tribunal por alguma coisa que eu havia feito – afinal, eu sempre pensei que os meus atos eram responsabilidade minha, mesmo muito nova e rebelde, eu sempre me continha porque quando tivesse que ser processada, etc, por alguma coisa, eu deveria responder pelo meu ato -, mas também outro sentimento me ocorreu. Me senti muito marginal, ali, quebrando regras claras.

Depois eu realizei que eu não estava sendo muito mais marginalizada à sociedade do que quando me julgam antes de eu abrir a boca, por eu ser vegetariana, ou feminista, ou (insira aqui qualquer uma das bandeiras que eu levanto por aí). Ou seja, nós que temos a opinião “radical” – porque defender seus direitos e as coisas que você acha certo é ser radical (e algo ruim), e baixar a cabeça sem contestar para qualquer coisa que lhe digam, não – precisamos nos manter calados à força, pois se fizemos o contrário, temos direito a duas reações: a) as pessoas vão caçoar de você sem nem prestar atenção no que você estava dizendo, ou seja, a discussão séria e baseada em argumentos virá só do contestado, o resto vai fingir que ouviu e descambar tudo para argumentos do naipe “mas é assim que é o mundo mesmo, você não vai mudar nada, sempre foi assim”, ou b) vão ouvir tudo o que você tem a dizer, e depois vão te chamar de extremista e  radical. Entre essas duas, tem vezes que eu me sinto cansada de pegar fulaninho pela mãozinha e explicar esmiuçadinho, tudo. Dá vontade de criar cartões com links de artigos e sair distribuindo para as pessoas,ao invés de responder as provocações.

E aí, me deparo com esse paradoxo:

Nesta época considerada pós-ideológica e pós-utópica, a radicalidade se tornou execrável. Somos continuamente alertados acerca da importância do diálogo e insistentemente instados a dialogar. Uma recusa ao diálogo é considerada uma posição radical e, no mínimo, um indício de uma possível tendência à violência. (Texto do Fabiano Camilo)

Não está fácil viver confortável em um mundo que parece que, se você não se ajusta aos padrões de opinião superficial, você é meramente… um radical.

 

aquele sobre rock

Quando eu era criança, as fitas que eu mais ouvia eram Pink Floyd e Xuxa. Depois vinha Michael Jackson e Sandy&Junior. Meu passado me condena, fazer o quê?

Na época de definir o gosto musical mesmo, aquela parte indefinida da vida, que pode ir dos 0 aos 18 anos – e no meu caso foi ali pelos 11 ou 12 -, eu pendi loucamente para o progressivo. Aquele mais mainstream mesmo, o Jethro Tull, o Rush, o Yes, o Genesis, etc. Depois foi o metal melódico, metal progressivo. Aquela coisa bem punheteiro cabeludo de 15 anos. Nerd. Quer dizer. Que tipo de pessoa aprecia progressivo e metal, né? :)   Aí veio Pantera, que foi tipo um meteoro da paixão na minha vida, e veio de um jeito meio sem querer, com Vulgar Display of Power, para dar um stop nas cinco horas diárias de lamentação ouvindo Dream Theater. E aos 16 veio Alice Cooper, David Bowie, Deep Purple, The Doors, e uma infinidade de coisas. Até os 15 eu nunca tinha ouvido Kiss,  nem Beatles. Mas já tinha ouvido Bach, bastante. Deve ser por isso que meu #1 sempre foi o progressivo, embora eu tenha tido a fase Hibria, Angra,  e derivados, ali por volta dos 17.

Mas… who cares, bitch?

O fato é que, sempre ali à margem, tinha Ramones, Nirvana, Sex Pistols, The Clash, Pixies. Blablablá. Gente que, para mim, fazia música tosca. Não via nada de legal em ouvir Nevermind e não entendia que diabos era o grunge, e nem porque faziam tanto alarde sobre isso. Mesma coisa sobre punks. Para mim não passavam de um bando de gente fedida, esquisita, que não sabia fazer uma música decente. Nunca prestei atenção nas letras, nunca pesquisei sobre o movimento. Nada.  Hardcore, punk, emo, grunge, rock de garagem, era tudo bullshit.

(A despeito disso, amava AC/DC, não pergunte).

Sempre fui muito certinha. Demorava muito para expressar opinião sobre algo, pesquisava muito antes de falar sobre qualquer assunto. Era CDF. Tinha uma dificuldade imensa de me comunicar de qualquer jeito além da escrita. O maior exemplo disso é o fato de que eu só fui falar com as pessoas do meu colégio três anos depois de ter me formado. Eu era gordinha. Usava óculos, aparelho. Vestia roupas ridículas. Nunca me sentia bem em lugar nenhum. Jogava volei e sofria um bullying intenso por estar sempre acima do peso. Gostava de computadores e sabia usar o windos 98 contra as pessoas das quais eu arrancava o número ip. Eu tinha uma rã de estimação. Eu jogava rpg.

Ou seja, se eu fosse menino, eu teria cara de metaleiro punheteiro de 15 anos.

Com o passar dos anos, as experiências, as responsabilidades, eu fui mudando. Eu não lia mais só livros de aventuras medievais, eu comecei a ler blogs, livros sobre filosofia, política, etc. Com o passar do tempo descobri que demorar para me sentir bem nos lugares me prejudicava, e que ser tímida só dificultava as coisas. Me vestir mal só tornava tudo pior.

Aí entendi que as pessoas seriam legais comigo, se eu também fosse legal com elas. Fui ficando mais descolada. Parei de usar as roupas que a minha mãe me dava, fui comprar as minhas próprias, etc etc. O pensamento também foi acompanhando a mudança externa. Fiquei mais libertária, mais libertina.

E eu sinto que cada dia eu sou mais e mais mente aberta. Tenho mais amigos do que eu consigo contar. Gosto de conversar. Me adapto mega rápido à lugares diferentes. É fácil me fazer sorrir.

Com essa transformação, de uns quatro anos para cá, veio o Nirvana, o The Clash. Se eu tinha aberto a cabeça para tantas coisas, porque não para o rock? Ouvi, prestei atenção no que aqueles caras diziam… E amei.

O som seco, alto, e simples, já não era mais motivo de desprezo. Era admiração. Porque eu me sentia assim. Livre para ser quem eu queria, falar o que eu quisesse. Eu parei de me preocupar com o que os outros pensavam de mim, passei a me preocupar com as coisas que eu achava que eu deveria lutar por. Se eu tivesse que chutar a mesa para chamar atenção para algo que eu julgasse injusto: eu chutaria. Sem pensar duas vezes.

Nessa época veio o feminismo, as tatuagens, a descoberta da liberdade sexual, e – o mais importante – notar que as pessoas gostavam de mim assim, autêntica.

Isso é muito grunge,  punk, e bem hardcore. Conhecer a si, a sociedade, saber o que se quer, e não dar bola para se você se ajusta numa bolha ou não… Isso coincidiu para mim com a descoberta do estilo musical, de toda uma gama nova de bandas para ouvir. Foi muito massa.

Jamais consegui tirar aquela adolescente socialmente inapta de dentro de mim, assim como sempre vou gostar de rock e metal progressivo, requintado, esmirilhado. Mas isso não vai me impedir de ouvir rock de garagem, cru, com jeito de teenager, cheio de palavras politizadas. Descobrir que eu posso apreciar músicas que falam de Tolkien  tanto quanto as que falam de repressão midiática, é fantástico.

aquele em que eu sonhei com a tatuagem e depois a fiz

Uma tatuagem não acabada no meu braço.

Não sei o que aconteceu dessa vez. Eu estava lá sentada, aquele som familiar de motor de agulha de tatuador zumbindo no meu ouvido. Às vezes eu queria chegar mais perto do tubo de tinta para saber que cheiro tem, para sentir um cheiro que depois vai morar dentro de mim, mesmo que eu nunca vá senti-lo. De repente, conversa vai, conversa vem, a dor foi ficando cada vez menos suportável. Normalmente quando me tatuam eu sinto uma queimação. É uma dorzinha tolerável, e diria que até um pouquinho prazerosa – se você ficar pensando no desenho lindo que está se formando ali. Só que dessa vez a dor era muito perceptível. Sentia a pele rasgando mesmo, como se cada célulazinha chorasse quando a agulha invadia a carne.

Da outra vez eu senti a mesma dor, mas como me disseram que ali, na perna, doía mais mesmo, eu achei que era normal. Mas no braço? Eu já tinha tatuado o braço antes. Não no mesmo lugar, nem no mesmo braço, mas já tinha.

O tatuador ficava conversando comigo, e não adiantava, não conseguia desviar o foco da dor. A hora do metrô se aproximando e eu notei que não ia dar tempo de terminar de colorir. Até agora não sei se não daria, ou foi a dor que me fez pedir para parar.

Depois, nenhuma gota de sangue.  Faz menos de uma semana e até a fase de sair a casquinha já passou. Foi muito rápido. A despeito da dor, a cicatrização foi como um tiro cortando o ar, se comparado com o que eu era acostumada.

Parece a minha vida. As coisas entram e saem, principalmente as dolorosas, eu me recupero tão rápido que o momento de sentir a dor é tão agudo que parece que vale por toda a recuperação que me deixaria dias e dias triste, e que no fim não acontece.

(Dessa vez eu tatuei um trevo. De quatro folhas. Sonhei que o meu amigo desenhava esse trevo com lápis 6B no meu braço esquerdo, partindo exatamente daquele lugar onde as enfermeiras espetam o meu braço para tirar sangue nas inúmeras vezes que doei o meu O+. Fui cara-de-pau e pedi para esse amigo tatuar o trevo igualzinho ao meu sonho.

No dia de fazer a tatuagem, ele estava vestindo camisa xadrez igual no meu sonho. Eu não falei para ele, porque ia soar muito bizarro, mas fiquei toda arrepiada quando ele sentou na minha frente com a máquina em punho e eu percebi que a cena era igualzinha. Faltava só as outras duas pessoas que apareciam rindo de mim no sonho.

E outra vez, igualzinho a todas as coisa da minha vida,  lá estava eu fazendo um sonho virar realidade. Esse trevo nem está pronto ainda, mas passou a me dar uma sorte enorme desde a hora que eu olhei ele no espelho, ainda caindo tinta pros lados, e com meu braço ainda meio manchado de verde).

 

Voltando a falar de dor. Esses dias muitas dores voltaram a me assombrar. Todas dores de meados de 2006, com aqueles cheiros de defunto me assombrando de novo, como se de repente eu tivesse novamente aquela maratona de velórios para ir. Morar sozinha não ajudou muito nesse sentido, mas foi muito muito muito melhor.

Dessa vez eu não tive suporte nenhum para aguentar o tranco. Um dia eu estava lá, sozinha naquela casa toda bagunçada, sem um real no bolso – literalmente – com dois gatos famintos, contas para pagar, e minha barriga roncando. Além disso aquela dor. Aquela dor de saudade de pessoas que eu nunca mais vou ver na minha vida, e um ódio raivoso delas por terem partido sem se despedir, sem explicar.

A dor era tanta que não rolava vontade nenhuma de sair da cama.

Daí um dia, como que por mágica, eu levantei, abri a porta, e  tinha sol entrando pela casa. Andei 5km à esmo pelo bairro novo. Conversei com os vizinhos. Catei lixo e fiz um armarinho com madeira velha de caixote – já que eu não tinha como comprar alguma coisa para guardar meus copos e xícaras – e  uma cama pros gatos. Liguei o computador e fui trabalhar. Não descansei um minuto até consguir freelas o suficiente para pagar as contas. Não foi fácil.

Mas assim como aquela dor que eu senti no meu braço, enquanto o meu amigo me tatuava, e estava ficando insuportável, eu levantei e sai andando. E deixei a dor ali latejando até passar. Como a tatuagem interminada, eu vou ter que encarar isso tudo outra vez para resolver esses problemas dentro de mim, para que eles não voltem nunca mais – e vou terminar esse trevo logo também. Só espero ter que encarar aquela dor invisível outra vez se for sentada numa cadeira da sala de um terapeuta.

Melhor aguentar a dor quando a gente tem um amigo do lado.

Sangue, carinho e dor: trabalhamos com amor.