aquele sobre cansaço e mudanças de casa constantes

Sempre fui muito adaptável e recebia mudanças e surpresas na vida com uma doce expectativa. Sempre foi fácil passar por mudanças. Minha mãe me criou para ser assim, esse tipo de pessoa para quem não tem tempo ruim, aquele alicerce de todos. Eu sempre fui aquela para quem as pessoas ligavam para ouvir palavras de entusiasmo.

Ms agora, depois de um ano morando em outro estado, outra cidade, e mudando de casa pela sétima vez, eu posso dizer que estou tendo meu primeiro real problema de adaptação e aceitação. Fiz as cinco mudanças anteriores sozinha, as duas últimas tive um pouquinho de ajuda para movimentar as coisas de um lugar para outro. Lembro que quando mudei do Centro para o Jardim Paulista fiz boa parte da mudança de bicicleta, e foi muito divertido. Nem me cansei. Só não levei minha cama de casal na bicicleta por motivos óbvios, mas se pudesse levaria. O ato de juntar todas suas coisas e leva-las de um lugar para outro pode ser traumatizante para uns, mas incrivelmente restaurador para outros. Reza a lenda que quando há uma mudança, um ciclo de fechou. E faz todo o sentido, visto que parece que essa estadia em SP dura há anos, e não só treze meses.

O fato foi que, dessa vez, doeu. E doeu muito. Além de ser cansativo embalar tudo e desembalar de novo em outro lugar, você se apega às paredes, às janelas, ao bairro, ao atendente da padaria… Partir é doloroso. Claro que sempre posso voltar, mas é o abandono da rotina que torna tudo difícil. Você exclui aquela pessoa do seu dia a dia. É triste.

Outra coisa que acontece é abandonar as pessoas que moravam com você. Essa parte pode ser boa ou ruim. No caso de você estar se mudando por causa da outra pessoa, a mudança é algo bom. Caso contrário, não. É difícil encontrar pessoas legais para dividir um teto. É como se fosse uma família que você não é obrigado a tolerar, então as coisas podem ficar hostis. Por outro lado, é incrível quando você encontra alguém especial com quems e dá bem, faz compras no mercado, fofoca às escuras no quarto a noite, liga para saber que horas vai voltar para casa, cuidam um do outro quando um fica doente, etc. É maravilhoso descobrir isso com alguém que não é seu namorado/marido e tampouco seu parente. Deixar esse tipo de pessoa é triste.

Bem, dessa vez, eu mudei com a pretensão de morar só. Daqui uns dez dias estarei sozinha mesmo, eu e meus gatos. Vamos ver como vai ser. Enquanto isso eu sigo no luto por todos os outros lugares onde passei e fui feliz, ou não, onde fiz história. Fato é que eu sou daquelas que vai se apropriando dos lugares e das coisas por onde eu passo, inclusive das pessoas que entram e saem da minha vida.

Hoje descobri que estava com crise de identidade, pois de cada lugarzinho e cada pessoinha eu absorvo um pouco.  Já não sei como vai ser enquanto estiver só.

Foi aí que eu li isso: Mi casa está dentro de las cajas.

Minhas roupas, meus livros, minhas fotos, meu tudo, estão em caixas. Minha identidade está ali. Ela me acompanhou por todos esses lugares, e sem elas eu ainda sei me situar. Sei para onde eu vou e quem eu sou. No que eu acredito.

Olho para as minhas tatuagens e tenho a mesma sensação. Meu ponto de referência, mil histórias por trás de cada gotinha de tinta.

Acho que assim eu vou vivendo mesmo.

E esse é o início de uma série de posts sobre identidade. Sobre descoberta.

 

aquele sobre quando pegaram nos meus peitos no ponto de ônibus

Daí que eu me mudei outra vez. Pela sétima vez. Se eu não ficar nesta casa pelo menos um ano, eu juro que me mudo para outra cidade. São Paulo tá me dando uma surra de adaptação.

Notei que tenho hábitos estranhos hoje quando coloquei Nickelback para tocar no Grooveshark depois de ter ficado três dias direto escutando Morphine e Porcupine Tree. E depois de 22 anos de vida tendo Pink Floyd como minha banda favorita de todos os tempos, frente a várias oportunidades de comprar o ingresso para ir no show do Roger Waters, eu me neguei veementemente a pagar 300 reais para ver seu show. Achei uma afronta.

Eu já paguei valores semelhantes para ir em outros shows antes – AC/DC, Rush.. -, mas agora NUNCA MAIS. Too much, baby. Alguém contou para esses ilustres músicos quanto é o salário mínimo no Brasil? Depois neguinho vem fazer crítica ao capitalismo, como o Waters fez no domingo. Ah vá.

Bem, voltando ao assunto dos hábitos, eu estava deitada na cama ouvindo a porra do Nickelback e ouvi passos do lado de fora. Pensei: minha amiga chegou. E de repente deu um pânico desgraçado de ela ouvir a música que eu estava escutando, e assim, Nickelback deve ser pior do que descobrir que seu amigo curte Chiclete com Banana e vai no trio elétrico todo carnaval de Salvador, sabe? No way.

Mudei rapidinho para Offspring. Menos julgamentos.

Então eu pensei porque eu estaria me importando, sabe? Semana passada eu senti uns dedos gelados no meu decote, enquanto eu estava sentada no ponto de ônibus e fazia o primeiro dia de frio nessa cidade cheia de garoa.  E era uma velha querendo tapar meu decote. Postou o dedo em riste, depois de repetir o gesto do decote com mais três garotas no ponto, e disse: Jesus disse que se um homem olhar para nós, mulheres, e imaginar fazer coisas conosco, mesmo que só na imaginação dele, então nós já seremos adúlteras.. blablablá.

Pegou o ônibus e foi embora. Me arrependi amargamente de não ter empurrado-a em plena avenida Rebouças, na frente do ônibus, de modo que ele não pudesse desviar. Eu poderia sair correndo desembestada pela Oscar Freire até a loja mais chique que pudesse encontrar e me esconder lá. Certamente faria um favor à sociedade. Mas tudo que pude fazer foi ficar olhando pra velha, estupefata e espantada com tamanho atrevimento. Ao invés de ficar imaginando joga-la na avenida, eu deveria ter levantado minha blusa e mostrado meus peitos.

Talvez ela morresse de infarte.

O que me leva a outra questão, que é a da minha amiga que eu pensei que estava entrando na casa enquanto eu ouvia aquela banda horrível. Daqui alguns dias ela vai embora para Minas, e depois para o Rio, e eu vou morar sozinha com meus gatos na minha própria casa. Finalmente. Minha casa fica no início da Zona Leste – yeah, da ZL mano! -, bem longe dos lugares onde morei antes e onde eu gastava uma média de 1200 a 2000 reais com a porcaria do aluguel, internet, condomínio, supermercado, etc. Chega. Chega dessa palhaçada. Eu não preciso morar do lado da avenida Paulista, cacete. Não nasci rica, não vou morrer por isso.

O problema de toda essa rabugice é notar que mesmo com mais de vinte anos na cara, e quase dez anos de relacionamentos imbecis, eu nunca soube lidar bem com rompimentos. Mesmo que eu tenha levado um pé na bunda meio falido, meio que já voltando atrás desde a primeira frase, isso me deixa com um mau humor que eu nem sei descrever. Acho que é a única coisa que me deixa assim. E a revolta por ter desistido de ir visitar meus cachorros, meus pais e meus amigos em Porto Alegre porque queria ficar com a criatura no feriado e daí ele vai lá e me chuta. Tipo, fiquei frustrada. Mas a esperança é a última que morre, então aguardemos. Caso contrário, não terá vídeos novos o suficiente no redtube para dar conta.

Outra coisa que me aborrece é a bagunça pós-mudança que ficou nessa casa. É caixa e mala para tudo que é lado, um caos. Preciso dar um jeito de limpar um monte de coisas, trazer meus gatos logo, colocar uma cortina no box do banheiro, comprar uma furadeira e prateleiras… Mas esse pé na bunda atrasou minha vida. E a falta de dinheiro na conta atrapalhou também.

Preciso parar de escrever porque tenho que voltar para magazine luiza, o ponto frio e a colomboo online. Tenho que comprar móveis urgente.

(Senti saudades do blog, espero que vocês também).

Ainda tenho dúvidas se sou adulta ou responsável o suficiente para morar sozinha com dois gatos e um butijão de gás. Me desejem sorte.