relacionamentos: o descaso na amizade

Daí que tinha o Ricardo. Namorava o Felipe, e era melhor amigo do Vinícius. Todos cariocas, moravam em São Paulo para ficar mais perto daquele ambiente cosmopolita urbano mal-cheiroso das revistas de moda, que gostavam tanto. O Vinicius trazia meninos e meninas ocasionalmente para dormir na casa que dividia com o Ricardo. Enquanto que este, dividida seis dias da sua semana com o namorado boy-magia em cima do sofá, vendo filmes do Lars Von Trier e discutindo o impacto das obras de Andy Warhol na década de 90.
Louça na pia era frequente. Quando Vinícius e Ricardo eram ambos solteiros e virgens, e já dividiam o teto e as contas na época da faculdade, louça na pia jamais ficara mais que meia hora. Lei do precedente: quem deixa a louça suja, abre precendente para o próximo deixar e não lavar. Hoje em dia, a louça do Ricardo com o namorado ficava mais de uma semana, se deixasse.
Vinícius odiava a negligência com os afazeres domésticos de modo geral. Sentia-se só limpando a casa, enquanto ouvia os gemidos altos do amigo vindo do quarto quando estava se divertindo acompanhado. Era irritante. Começou devagarinho. Durou uns seis meses. As roupas que diarista lavava ficavam mais de cinco dias ocupando o varal. O cachorro não recebia ração se não fosse ele a lembrar o amigo apaixonado.
Um dia Ricardo tomou um susto com as malas de Vinícius na porta da sala. A cozinha semi-vazia, sem metade dos utensílios domésticos. No rosto do desertor, um espasmo de tristeza e um olhar abandonado. “Você está indo embora, Vinícius? Por que você está indo? Desistiu da nossa amizade?”.
“Você desistiu da gente antes, Ricardo ” ele respondeu numa voz clara e lúcida, que não parecia combinar com a cara de choro que sustentava “Tudo o que construímos, você negligenciou. Esqueceu do nosso companheirismo, esqueceu que essa casa pertence a nós dois antes de qualquer namoro que tenhamos. Você esqueceu o nosso compromisso”.
Pegou as malas e saiu arrastando tudo desajeitadamente pelo corredor.
Os minutos esperando o elevador foram eternos, mas ao lembrar da louça que ficou suja na pia da cozinha, cheia de moscas, e que ele não preciaria lavar, Vinícius sorriu.

 

//Esse é mais um post da série Rapidinhas para ler no metrô.

relacionamentos: a falta de conversa

Ana gostava de Vinícius. Eles ficaram, transaram, e dois meses depois começaram a namorar. Vinícius tinha aquela mania ridícula de falar mal da roupa das pessoas na rua. Começou discretinho, rindo dos óculos rayban dos hipsters-wannabe que andavam pela Augusta na sexta a noite, e depois passou a falar aos gritos dos chapéus das blogueiras-de-moda que passeavam na Benedito Calixto sábado comendo pastel de feira. Falava do aparelho do cobrador de ônibus, e da saia curta que a amiga da Ana vestiu para ir com eles naquela festa. Ela odiava gente que cuidava da vida dos outros, e no início achava engraçadinho o que ele fazia, ignorava. Era tão bom de cama que não valia a pena pensar sobre aquilo.
Ao fim de seis meses ela já não o suportava. Quando ele começava a falar sobre alguém na rua, ela fechava a cara. Ficava emburrada. Ele perguntava o que estava contecendo, e ela respondia solene “Nada”.
Um dia eles chegaram em casa, ele em fogo, ela meio cansada. Ele foi tirando a roupa dela com vontade. Ela só conseguia ouvir a voz dele dentro da mente dela, naquele tom irritante falando das roupas alheias, de desconhecidos e de amigos próximos, e de como eram cafona. De repente ela parou a mão dele, que já estava botando a alça do sutiã pro lado, olhou pra cara do pobre Vinícius e disse: “Não dá mais, está tudo terminado. Não te aguento mais”. Arrumou o sutiã, botou o vestido. Deixou ele a olhando com cara de quem não entendeu nada, um “por quê?” não dito saindo da boca aberta.
E Ana foi embora em passos decididos.

//Sim, isso é um conto. Baseado em fatos reais ou não, quem sabe?
Talvez eu faça uma série chamada “Rapidinhas para ler no metrô“. Feliz dia dos namorados atrasado, folks!