Às vezes tenho saudade de hábitos não muito dignos.
Ontem cheguei a conclusão de que não fazia sentido não ter mais ninguém para encher meu saco quando eu ficasse bêbada de tropeçar, se eu não aproveitasse a chance. Tipo, qual é a graça? A pessoa passa anos babando de raiva porque passou anos ouvindo sermão do pai, da mãe, a risada debochada da irmã que ligava Restart bem alto quando a pessoa estava de ressaca, os amigos íntimos dando lição de moral no fim da noite, etc. Aqui em em SP no hay irmã nem pais chatos, e os meus amigos daqui ainda não são íntimos os suficiente para me pegar pelo pulso à força e dizer: você passou do limite.
E daí que ao invés de aproveitar e adotar o estilo Ferris Buller de viver, a cidadã aqui vai dormir todos os dias as 22h e acorda as 6h20 para tomar leite de soja, fazer alongamento, e ler livros no notebook.
Então ontem eu pensei: CHEEEGA! QUERO MIJOGAR NO ALCOOHOL E FUCK REHAB!
Passei o dia no FLISOL, dei a palestra, etc etc. No fim do evento sai com uma amiga para um pub.
Quase 1 litro de Guinness depois, ensaio fumar um cigarro, mas finjo que fumo, porque não aguento mais fumaça de Lucky Strike, Malboro, Free, ou qualquer coisa que induza fumaça cinza para minhas vias nasais ou pulmões. Poser. Fumei fingindo, subindo a rua Augusta, como se eu fosse tão junkie e subversiva quanto aqueles adolescentes de penteado de David Bowie e roupa neon. A diferença era que eu sabia que eu não era junkie como eles, e sabia que nem eles eram junkies quanto pensam – afinal recentemente tive a mesma idade que eles, não? Tô ligadíssima na arte poser de auto-afirmação de ser.
Aí vou visitar um casal de amigues, e não é que o povo gosta de cerveja quase que mais do que eu? Sei lá, acho que umas cinco cervejas diferentes depois – de novaiorquina a jamaicana – eu estava pensando “Hoje vai ser dia de fuck rehab mesmo, já não era sem tempo. Já vou tomar os Engovs”.
Mas eu não tinha Engov. Bem, pensei lá com meus botões, azar. Faria um revival aos velhos tempos da ressaca maldita, em que acordava com a cabeça igual a do Bob, do Estranho Mundo de Bob.
Cai na balada. Primeira coisa que eu peço no balcão: um mojito, por favor. Já estava quase jogando um beijinho de bêbada para o garçom gatinho, quando percebo – como um soco no meu estômago – que eu não estava bêbada.
Tomei o mojito, andei pela pista. Parei do lado da caixa de som. Nada. Nem uma tonturinha. Nem um girinho.
As pessoas falavam comigo e eu entendia.
Comecei a ficar com sono. Pedi uma água. Eram 2h da manhã e eu sonhava com o edredon da minha cama. Fui pagar a conta, um bêbado autêntico me puxou pelos cabelos, eu empurrei, ele veio de novo, eu empurrei de novo, ele deu com a garrafinha de Stela Artois na própria cabeça.
De repente eu dei graças ao céus e lembrei que grande idiotice seria ficar bêbada. Será que eu estaria batendo com uma long neck na minha própria cabeça? Talvez fizesse pior, se bem me conheço.
Então, cheguei em casa, lavei o rosto, botei o pijama, ajeitei a cama, tirei maquiagem, etc etc. Dormi. Acordei as 10h, sem dor de cabeça, sem gosto de meia velha na boca. Um milagre.
Agora eu pergunto: devo começar a me preocupar? Há algo de errado com meu fígado? Será que nunca mais na vida vou conseguir ficar bêbada?
Fim da história.