aquele sobre dois mil e treta

É de praxe escrever sobre o ano que passou, desde que eu mudei para São Paulo, há alguns anos. E é de praxe que a minha resolução de ano novo seja sempre só uma frase.

Fiquei aqui parada e não consigo escrever nada sobre 2013. Poderia dizer que foi o ano que a minha vida virou de cabeça para baixo, mas a verdade é que todos os últimos anos viraram minha vida de cabeça para baixo. Então, até aí, nenhuma novidade. Antes de começar a escrever esse texto, encontrei um fio de barba em cima da minha mesa, e agora o reviro entre os dedos. Não, a barba não é minha. Mas é a deixa do destino para me lembrar que lá se vai mais um ano que foi feliz. Posso dizer que de todas as cinzas, eu construi castelos, e rejuntei as pedras com lágrimas que andei deixando por aí. Foi o ano de não chorar nos momentos que eu achei que choraria, e de chorar quando queria manter a pose. Escolhi. Sim, foi o ano que eu escolhi. ( ) ser feliz. ( ) alimentar a depressão. ( ) conhecer pessoas novas pela internet. ( ) não encontrar nenhuma pessoa desconhecida. ( ) pular de um prédio. ( ) não pular de um prédio. ( ) fazer aulas de parkour. ( ) não enfrentar o medo de pular entre obstáculos. ( ) ter chefe. ( ) não ter chefe. ( ) ser chefe. ( ) não ser chefe. ( ) me deixar apaixonar por alguém que mora em outro estado. ( ) não me deixar apaixonar. ( ) estreitar amizades novas. ( ) me esconder debaixo do edredon.

Hoje eu queria ter o poder de voltar ao passado.Não para refazer alguma coisa, mas só para encontrar eu mesma há 12 anos atrás, e dizer “Não vai ser como você imagina, mas vai ser.”

Resolução para 2014: segurar tudo isso que eu consegui em 2013.

Não vai ser fácil. Mas também não precisa doer.

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Aqui, as escolhas marcadas e bem aproveitadas.

(x) ser feliz. ( ) alimentar a depressão. (x) conhecer pessoas novas pela internet. ( ) não encontrar nenhuma pessoa desconhecida. ( ) pular de um prédio. (x) não pular de um prédio. (x) fazer aulas de parkour. ( ) não enfrentar o medo de pular entre obstáculos. ( ) ter chefe. (x) não ter chefe. ( ) ser chefe. (x) não ser chefe. (x) me deixar apaixonar por alguém que mora em outro estado. ( ) não me deixar apaixonar. (x) estreitar amizades novas. ( ) me esconder debaixo do edredon.

a mtv me fez instalar uma antena UHF

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Pessoal adora falar que ainda bem que a MTV acabou.
Eu não. Nunca tive tv à cabo quando criança, e por muito tempo aquele foi o único canal com programaçào mais interessante ao qual eu tive acesso. Na verdade, primeiro eu achava que era um canal pago, depois descobri que não pegava na minha casa porque a gente só tinha antena interna VHS. Meu pai ficou enrolando e me disse que não tinha grana para comprar uma antena externa UHF, que era o que eu precisava para pegar a MTV. Fiquei sabendo que o cara que uma tia namorava na época estava jogando um monte de eletrônicos fora, fui atrás do lixo e adivinha: tinha a antena que eu precisava. Eu também não tinha computador naquela época, então fui até um museu do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e acessei o Google de lá (eu já amava o google antes de sequer ter um computador em casa). Descobri como instalava a antena, acho que em algum link que eu achei na antiga Nupedia, que era em inglês e eu não entendia o suficiente na época, mas prestei atenção nas imagens. Não lembro bem.

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E então um dia eu me vi, com 12 anos de idade, usando a escada do meu pai para subir no telhado de casa e pendurar uma antena. Isso até foi fácil, difícil foi fazer o cabo passar pelo buraco da parede na sala, e esconder aquela massaroca de fios dos meus pais. Quando eles chegaram em casa, ficaram aborrecidos por eu ter subido no telhado sozinha, mas nào brigaram comigo: eles sabiam que eu estava feliz. A MTV estava pegando e eu ia poder ver a maratona The Osbournes todo o domingo. Naquela altura da vida eu já estava entendendo o que era obter sucesso em uma empreitada. Foi mágico. Foi a primeira vez que eu entendi que nada no mundo iria me deter quando eu quisesse alguma coisa.

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Era 2002, e de rock eu só conhecia Pink Floyd, Ramones, Rush e Black Sabbath. De nacional, só Legião Urbana e Capital Inicial. Veja bem – eu precisava conhecer coisas novas. Lembro que foi o ano que estourou Avril Lavigne, e eu nem conhecia muito de música, mas já achava aquele som muito ruim e excessivamente pop. O Disk MTV rapidamente já não me servia muito, e não demorou para eu descobrir o Massacration, e os programas especiais que contavam a história das bandas. Depois veio a paixão e o asco pelo João Gordo, total mixed feelings que eu não tinha idade para entender; um misto de carinho por ele ter me mostrado tantas bandas novas, com nojo por eles ser tão… João Gordo. Lembro que foi com ele que eu aprendi vários palavròes também. E com o Chorão, do Charlie Brown, eu aprendi o que era “escroto”. Depois da era Avril Lavigne, comecei a prestar atenção nas bandas que tinham garotas, e descobri um mundo todo novo. Descobri que eu poderia fazer rock também, se eu quisesse. Parece besteira, mas isso é muito verdade: eu só conhecia bandas com integrantes do sexo masculino, nunca me passou pela cabeça que uma mulher pudesse tocar. Ironicamente, a primeira mulher que eu vi com uma guitarra na mão, foi a Kim Deal, e logo depois me informaram – aos risos – que aquilo era um baixo, e não uma guitarra.

[Uma pausa e um minuto de silêncio em respeito: muitos anos depois disso tudo (uns 10 anos), quando eu me mudava de Porto Alegre para São Paulo, depois de uma semana na cidade nova, eu liguei para minha mãe. E eu disse o seguinte: "Mãaaae, as pessoas em São Paulo falam IGUAL ao Sinhá Boça, do Hermes e Renato!".Para vocês vereme as minhas referências. ]

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Nunca tive mesada, e o primeiro dinheiro que eu ganhei na vida foi do meu avô, naquele mesmo ano, 2002. Cem reais. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro na minha frente, e achava que nunca teria tanto dinheiro assim na mão, na vida. A primeira coisa que eu fiz: no dia seguinte, sai do colégio e fui até a Multisom da Rua da Praia, e comprei um violão. Fui até o computador do museu, que tinha acesso à internet banda larga, e copiei à mão a cifra de Hotel California, da The Eagles. Pensem no trauma.

Semanas depois eu ria assitindo um programa da MTV que mostrava o KLB fazendo cover de Hotel California, e dizendo que era o conjunto mais brega do ano, de todas as edições brasileiras de Acústico MTV. Tempos bons aqueles de Piores Clipes do Mundo. No ano seguinte, 2003, eu pagava uns colegas da escola que tinham computador com internet (discada) para gravar CDs para mim, com albuns e músicas de bandas que eu assistia naquelas playlists temáticas de domingo pela manhã. Lembro que uma vez pedi uma lista de músicas de Jacksons 5 e me devolveram um cd cheio de versões de todas aquelas músicas, só que tocadas por Sandy & Junior. Ninguém me levava a sério na época da escola. Só a MTV.  Na minha cabeça, claro.

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Aprendi muito com o Jairo Bauer e a Penélope Nova no Peep MTV. Enquanto meus amigos reduziam o volume ao mínimo possível para assistir o Telecine Privé na Band, eu fazia o mesmo para ver e escutar o Peep. Acho que eu cresci tão desencanada com sexo por causa desses programinhas que a MTV fazia. Lembro da situação, eu no início da adolescência, sem nunca ter nem beijado ainda, escutando conselhos do Dr. Jairo para um homem de trinta anos com problemas de ejaculação precoce. Foi um curso e tanto.

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A primeira vez que eu falei em público foi em uma versão do Fica Comigo MTV, em 2003, que fizemos na escola, e eu fui escolhida para apresentar o tal programa – que era uma atividade da aula de teatro. Ouros grupos tiveram que representar outro programas, a maioria da Rede Globo, e eu lembro de comentar na epoca que a minha interpretação ia ser a melhor de todas porque meu sotaque era igual ao da Fernanda Lima. Nossa, como eu me diverti naquela época do Fica Comigo do Paraguai, como a gente chamou! Fizemos mais de uma edição, e no final, ninguém tinha coragem de beijar ninguém no palco da escola, e eu ficava com cara de idiota com aquele microfone na mão, contando piada. Inclusive, anos depois, no Beija Sapo MTV, tivemos os primeiros beijos gays da televisão brasileira – e eram ao vivo. MTV sempre à frente.

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Vivi muitos momentos com a MTV. Ela estreiou no Brasil no mesmo ano em que eu nasci, e eu acho que se hoje nós temos muito leitores da Vice na minha faixa etária, isso se deve muito aos programas daquele período 2000~2005, quando a MTV não tinha nada a perder e ainda era realmente contestadora. Na verdade, nem sei se ela deixou de ser. Porque depois dessa época, nos últimos anos, enquanto nós tinhamos Zorra Total na Globo para assistir, e CQC na Bandeirantes como alternativa, a MTV estava fazendo Furo MTV e os programas excelentes do Adnet. Até nessa época de foco no humor de qualidade, a MTV contestou os formatos. Inclusive, a MTV mudou tanto quanto a gente mudou ao longo da vida, cresceu com a gente, nos educou, enquanto nós também a educamos. Ela sempre foi um reflexo da juventude da época.

É uma história bonita. Eu espero que com cinquenta anos eu sente para assistir a MTV e veja o mesmo formato jovem e contestador da época dos meus 12 e dos meus 22 anos. Mesmo que o “contestador” de cada época seja diferente da outra – e por que não seria? Keep calm, a vida continua. O mundo não parou na sua adolescência.

A MTV não acabou propriamente, mas ela saiu da TV aberta. Eu lamento pelas pessoas que ainda não podem ter internet banda larga e televisão à cabo – que foi o meu caso quando eu era pré-adolescente – porque elas não vão ter nenhuma alternativa de programação na sua tv.
Só isso.

quatro anos de boa sem carne

Aí, quatro anos de vegetarianismo – e eu ainda não virei vegana. Nem são 8 da manhã e eu já li três comentários revoltados no meu blog sobre vegetarianismo, que está sem post atualizado há pelo menos dois anos, me acusando de não saber nada sobre especismo. É, naquela época, eu sabia bem pouco sobre especismo, e ainda hoje eu tenho um tanto de coisas para aprender. Desde 2009 eu questiono meu vegetarianismo todos os dias, e todos os dias a resposta vem sendo: “moço, tem alguma coisa sem carne no cardápio?”. Pode ser que eu acorde amanhã e mude de ideia, pode ser que daqui 10 anos eu tenha alguma complicação de saúde, seja internada, e me forcem a comer carne. Pode ser, pode ser. Mas agora, nesse momento, eu prefiro me abster do consumo de carne. Eu venho doando sangue periodicamente desde então – essa maldita culpa cristã por ter sangue do tipo O -, e nunca tive nenhum quadro de anemia ou algo parecido. Salvo um “quase”colesterol no limite do aceitável, há muito tempo.

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Pelo menos uma vez por mês tem uma pessoa que eu recém conheci, ou um amigo com quem nunca conversei sobre, que faz a inexorável indagação: por que você é vegetariana? Eu nunca dou a mesma resposta, porque minha razão muda todos os dias. Mas eu gosto quando alguma outra pessoa, que me conhece a mais tempo, responde por mim. Geralmente são dois tipos de resposta: “é por ideologia!” ou “ela tem pena dos bichinhos” (essa última sempre vem acompanhada de um biquinho, um olhar amável para a minha pessoa, ou um tapinha nas minhas costas). Nenhuma resposta está errada, acontece é que eu acrescento motivos ao longo dos anos, conforme eu vou lendo mais sobre o assunto – como qualquer outra coisa na vida da qual você se importe. Daí que, para comemorar esses quatro anos sem carne, e milhares de motivos para continuar sem, eu vou listar algumas perguntas e afirmações que sempre me jogam na cara, e tentar responder ou explicar os motivos de não haver resposta para algumas delas.

Temos pastel de presunto e queijo.
As pessoas acham que presunto vem de onde? Da árvore? Claro que eu não falo isso quando me oferecem esse tipo de coisa, eu sorrio – fazendo “a linda” – e digo “Mas presunto também é carne. Hehe.. Tem um só de queijo?”

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Por que você não come carne? Você é gaúcha!
Eu não como carne, acima de tudo, porque os bichos tem uma vida miserável e muito muito muito dolorida nos centros de abate. Veja bem, eu nunca disse que não gostava. Eu amo bacon. Eu adoro salmão do sushi. Meu prato preferido sempre foi coração de galinha assado em churrasco – bem comum no Rio Grande do Sul. Nunca esqueci o sabor dessas coisas. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, eu não sofro nem um pouco quando vejo pessoas as comendo na minha frente. Eu não consigo mais comer essas coisas sabendo de onde elas vem, apenas isso.
Normalmente eu faço uma analogia bem forte para algumas pessoas a respeito disso, quando insistem muito. E, coincidentemente, essas pessoas insistentes sempre são homens brancos e heteros, metidos a machão. Eu costumo confrontá-los com o seguinte: “Moço, imagina que você encontrou a mulher dos seus sonhos, fisicamente falando, aquela com que você sempre quis transar, e você percebe que ela é uma prostituta. E você tem exatamente a grana que custa o serviço dela, ali, na sua mão. Antes de transar com ela, você descobre que ela foi traficada bem novinha, arrancada da sua família à força, e vem sendo escravizada no mundo da prostituição desde criança. Eu te pergunto: você come?”. Normalmente as pessoas ficam me olhando como se eu fosse louca. Mas eu estou as achando loucas há muito mais tempo, pode ter certeza.

É chocante? É. Mas é o mais perto que eu consigo chegar para fazer alguém entender a minha lógica, quando todos os argumentos e exibição de filmes de tortura com animais não foram o suficiente para pessoa largar do meu pé. E veja bem: não é nem que eu saio por aí tentando convencer as pessoas a pararem de comer carne, é só que tem gente que se incomoda por eu não estar comendo. Quem é o mau educado ali?

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 Mas nem peixe?

Nem peixe. Eles também são animais, eles também sofrem, etc etc. Inclusive, a pesca dos peixes mais gostosos e mais consumidos é aquela que mais acaba com a fauna marinha – você sabia que milhares de outras espécies de animais marinhos são pegas naquelas redes de arrasto (principal meio para pescar sardinha, por exemplo) e morrem esmagadas, tendo seus corpos partidos em vários pedaços através das redes de pesca, por causa do peso exercido pelos outros animais que estão em cima, sufocando sem água para respirar? Então. Só para começar.
E digo mais: eu tenho ódio infinito sobre as pessoas que comem apenas peixe e se dizem vegetarianas. Amigos, vocês não são vegetarianos. E vocês prestam um enorme deserviço aos vegetarianos, porque é por culpa de vocês que às vezes nós somos servidos de frutos do mar, sem aviso prévio, depois de termos avisado alguém não comemos carne.

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Você não comer carne não faz com que os animais parem de ser mortos.

Sério? Nossa, eu achei que eu fosse tão importante que só pelo fato de eu ser vegetariana o mundo inteiro seria também!
Então, falando sério. Eu sei de muita coisa por aí, sabe. Eu sei que o fato de eu não pegar numa arma e sair matando quem eu não gosto por aí, também não vai fazer com que o homicídio seja extinguido do mundo. E por acaso, por causa disso, eu tenho uma arma e saio matando geral? Não, né. Eu sei que se eu não for corrupta, os políticos automaticamente não vão deixar de ser corruptos. Mas eu estou aí desviando dinheiro pelo mundo? Não. Sabe, vegetarianismo é uma questão extremamente cultural, embora muitas pessoas não entendam o que isso quer dizer. Prometo que vou escrever exclusivamente sobre isso em um próximo post, porque o assunto é grande.

Qual é o propósito de comer carne, mas continuar consumindo produtos de origem animal?

Tá aí algo que eu ainda não sei responder nem para mim mesma. Eu acredito que o veganismo é o caminho, sim. E eu tento ao máximo seguir a premissa até certo ponto que eu acredito ser saudável para mim, por enquanto. Ainda não virei inteiramente adepta porque eu sinto cheiro de que vou enlouquecer muito – costumo entrar nas coisas de cabeça – e venho me preparando espiritualmente para isso. Acho que uma hora eu viro vegana, só não sei se daqui dois meses ou daqui cinco anos. Mas uma hora, eu sei que essa chave vira.
Às vezes eu sinto que ser vegetariano é como dizer que é católico não-praticante. Tipo, isso não existe, é uma enganação. Mas enfim, é o que temos para hoje. Obs: não, eu não sou católica! Peloamor.

Como você faz quando não tem opção?

Não como nada.

Crianças na rua são mais importantes do que animais.

(Péeee! Especismo detected!) Nessas horas eu costumo perguntar  “O que você tem feito pelas crianças abandonadas na rua? Conte-me mais!”.

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 Eu li em uma revista que alfaces também sentem dor.

As pessoas que se preocupam com a tal dor das plantas deveriam ser as primeiras a pararem de consumir carne, visto que hoje em dia, as maiores plantações existem para surprir a necessidade de alimentação dos grandes números de animais que estão esperando para ser abatidos. Acho que essas pessoas deveriam, inclusive, fazer protestos dentro dos supermercados para salvar mais alfaces de serem colhidas. E deveriam ser adeptas daquelas doutrinas alimentares em que os seres humanos conseguem se alimentar de luz. De tão iluminadas que essas pessoas devem ser, por se compadecerem da dor das plantinhas. Que dó!

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Enfim, para quem ficou afim de conhecer mais sobre vegetarianismo, eu recomendo fortemente um livro, Comer Animais, do Jonathan Safran Foer. Lá mostra as duas faces da moeda, de um jeito bem sincero e simpático. É o livro que mais releio, disparado.

 

 

uma camiseta do ramones incomoda muita gente

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Tem várias garotas usando a camiseta do Ramones porque acham bonita, sem saber que pertence a uma banda.

SO, WHAT?

Pessoas usam camisetas de bandas sem conhecê-las desde os anos 90, a questão é que antes ninguém tinha celular, nem câmera no celular, nem redes sociais, e também não tinha jornalista tendo que justificar ida ao Rock In Rio sem precisar falar de música. Em pleno 2013 tem gente achando uma lástima que tantas pessoas que compram na C&A possam estar usando uma roupa com o nome da banda que elas tanto amam. Façam-me um favor. Tenho certeza que Joey Ramone estaria… cagando?

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“A prova cabal, pois, de que hoje, entre o público feminino, o Ramones é moda. Se o ideologia do movimento punk é lutar contra o sistema, sem saber muito bem o que fazer para consertá-lo, seu grande ícone hoje está banalizado nas camisetas de um festival de música.”  Não, meu caro. O punk é, e sempre foi, sarcástico até o último talo. A moda se apropria de todos os movimentos possíveis e imagináveis, nunca deixa nada de fora. E com o punk não seria diferente – a questão é que popularizar um símbolo da cultura punk não quer dizer que seja algo ruim. Nem mesmo pensar que é um movimento que está sumindo, pois as coisas não somem simplesmente como se tivessem dia e hora para começar e acabar – ou como se o comercial de manteiga do Johnny Rotten fosse sinônimo da implosão de todo o material produzido pelos punks desde os anos 70. Isso parece papo de gente que adora uma banda, e depois torce o pescoço para ela a partir do momento em que começa a tocar na rádio, ou quando começa a aparecer muito nas mais tocadas do last.fm da galera. Não que eu esteja comparando Ramones com qualquer banda nova, mas a analogia é válida, sim.

Se uma banda está aparecendo muito por aí, seja na televisão ou na estampa de uma roupa, a chance de um adolescente jogar isso no google e descobrir todo um mundo novo é enorme. Mesmo que seja uma adolescente querendo saber se a “grife” Ramones tem loja virtual. Sabe, sendo mulher e usando camiseta de banda de rock desde muito nova, a coisa que mais me aconteceu em lugares públicos, onde tinham shows abertos, era isso: alguém vir me perguntar qual era meu albúm favorito da banda cuja camiseta eu vestia. E eu posso contar nos dedos quantas vezes a pergunta surgiu de um genuíno interesse, e não da expectativa do cara em rir da minha cara e me acusar de “cometer o crime” de usar a camiseta da banda que ele curtia. Perdi as contas de quantas vezes deixei de usar a camiseta de uma banda que eu gostava, mas que não conhecia o suficiente – leia-se: não sabia o nome de pelo menos cinco discos de cor – para poder conter esses interrogatórios. (Em contrapartida, lembro de ter deixado de ficar com alguns caras exatamente por eles terem feito isso comigo).

Também não vi questionarem os homens sobre a mesma questão da camiseta – e eu vi as camisetas do Ramones no setor masculino da Renner também, hein. Inclusive, vi estampas de comics de super-heróis em capas clássicas; vão começar a perguntar para os caras na rua quantas edições de Lanterna Verde eles leram para obter o direito de vestir a camiseta do Allan Scott? Duvido. Machismo estrutural: estamos de olho.

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À parte disso, como uma amiga disse esses dias, apenas fun fun fun. O mundo é uma coisa enorme, lotada de diversidade, cheia de coisas para gente descobrir. Lembra no início de 2001, quando começou a onda emo, que muito pouco celebrava o emocore mesmo, e se apropriava de elementos punks e góticos? A gente tirava sarro, mas hoje eu não tenho dúvidas que são esses caras que fazem o volume crítico nos shows das bandas mais clássicas que ainda vem tocar no Brasil, desde o show do Morrissey até o show do The Cure, por exemplo.  Muita gente achava que os spikes e as munhequeiras que aqueles adolescentes usavam eram uma grande ofensa, muita gente apanhou naquela época por ousar usar jaqueta de tachinhas com cabelo arrumado à chapinha. Mas eu pergunto: onde estão esses emos hoje? Sumiram. O punk sumiu junto com eles, ou o punk morreu porque eles usavam spikes e couro? Não.

Deixem as pessoas usarem as camisetas que elas quiserem.

E parem de ser sexistas.

Especial: um post do Rocka que mostra garotas tocando covers de Ramones.

–..–
Só para aproveitar o embalo, deixo aqui a minha playlist especial de Ramones, Patti Smith, New York Dolls, MC5, e toda aquela galera. Enjoy. ;)


aquele sobre correr atrás do seu sonho

Disclaimer: Esse texto é sobre isso.

Hoje eu fui buscar uma toalha para tomar banho e percebi que todas estavam recém-lavadas e ainda muito úmidas, estendidas no varal com um dia nubladíssimo se abrindo em frente a elas. Peguei minha saída de banho atoalhada e me virei para me secar com aquilo; sem banho eu não ia ficar, e sem me secar também. Muito simples.

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Por algum motivo, no meio desse raciocínio trivial, eu desesperei um pouquinho – rolou o que eu chamaria de ataque de pânico, se eu não conhecesse pessoas que tem ataque de pânico de verdade. Fiquei pensando na série de coisas que muitas vezes pensei em deixar de fazer porque eu não tinha na minha mão o que seria necessário para fazer aquilo. Essa noite eu sonhei que tinha viajado com alguém, e ido para uma praia linda e deserta, e quando chegamos lá a gente se deu conta que não trouxe barraca para o camping, mas na mesma hora a gente se olhou e riu “dormimos no carro então!” e saímos correndo para assistir ao pôr-do-sol na praia. Acordei com essa sensação incrível de que não existe obstáculos para gente fazer o que quiser da nossa vida, se nós formos criativos e tivermos um mínimo de discernimento – e formos classe média, claro. Apesar de eu estar falando de coisas pequenas.

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E de repente eu lembrei do amigo da galera que morreu no último sábado, e das 48 horas que eu claramente escondi de mim mesma que quem tinha morrido era exatamente aquela pessoa. Pela primeira vez eu senti na prática uma consequência real, e talvez pós-traumática, dos anos terríveis que eu vivi em silêncio na adolescência, dizendo para todo mundo que estava tudo bem, mas por dentro me sentindo completamente arrasada e desejando profundamente estar tão morta quanto todos os amigos que eu perdi nessa fase. Só que não rolava de falar para os meus pais e nem para os amigos (os vivos, claro) que eu estava arrasada por dentro, porque a resposta que eu procurava nenhum deles poderia me responder. Seria injusto jogar aquilo neles. Então acabou que eu segurei a pergunta aqui dentro por pouco mais de dez anos e finalmente eu a joguei para o mundo: por quê?
Ontem, depois do ataque de choro incontrolável no banheiro da empresa, sentei na minha mesa e contei para o pessoal o que estava acontecendo. Todos se compadeceram, claro, e deram os pesâmes. Uma garota, naquela tentativa normal que as pessoas tem de passar o sentimento de conforto e indignação pelo acontecido, soltou uma frase clássica que se ouve nesses momentos “quando gente jovem morre não é certo, não parece natural“.
Faltou muito pouco para eu virar e respoder “não, acontece sim, e é mais normal do que você pensa”, mas não juntei espírito de porco suficiente para responder isso – afinal, ela não merecia. Ninguém merece, afinal de contas. Só sorri e concordei com a cabeça. Mas o fato é que, para morrer basta estar vivo. Não interessa a sua idade. Aprendi isso tão cedo que chega a ser ridículo.
Mas o fato é que, essa dor que a gente sente, é só a lamentação profunda de todas aquelas coisas que aquela pessoa simplesmente deixou de viver. Não quer dizer que ela saiu perdendo , é simplesmente a vida que é assim. As coisas acontecem, você pisa na rua e está sujeito a todo o tipo de coisa. O que faz diferença é o que você faz em vida. E bom, o nosso amigo estava fazendo. Não era porque ele não tinha uma pista de treino adequada que ele deixou de treinar. Ele sabia dos riscos, arcou com eles, e foi – assim como dezenas de amigos nossos, na mesma situação, o fazem dia após dia. O assalto poderia não ter acontecido se todo mundo contribuísse o mínimo para gente ter um mundo mais justo com todos. Aconteceu. É horrível, e mesmo assim, tem tanta gente fazendo o mesmo… Eles devem parar de treinar porque alguém morreu? Devem parar de seguir seus sonhos? Claro que não. O que aconteceu foi inadmissível, e é por isso que mais pessoas devem fazer o que o Igor fazia: ir para a rua e ocupar o espaço que nos pertence. Quanto mais pessoas fizerem isso, menos gente vai morrer. A demanda por espaços seguros aumenta; aliás, todo o espaço deveria ser seguro. E temos que bater nessa tecla para que mais jovens possam continuar seguindo seus sonhos sem serem brusca e estupidamente interrompidos, não por criminosos ou carros pilotados por irresponsáveis, mas sim por uma sociedade opressora, que prega a cultura do medo ao invés de te ensinar a botar a cara para fora e não ter medo de fazer o que você quiser.
Hoje, ao invés de ficar com medo de pedalar por aí, nós devemos fazer questão de colocar as bicicletas na rua. É nosso deve ocupar o espaço que é nosso por direito, e que foi arrancado do Igor à força, quando ele ainda tinha tantos caminhos para trilhar.

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É por isso que ontem, quando eu finalmente tive coragem de me perguntar “por quê?” eu sabia a resposta. A resposta é: porque viver é preciso.
Só não vive quem não quer. Todos acham que o conforto é um prisão, o medo também, eu diria que todos são apenas formas diferentes de se viver. Tem gente que escolhe ter medo de pedalar, tem gente que escolhe ser sedentário, tem gente que escolhe ter emprego meia-boca e segurança financeira, tem gente que escolhe trabalhar estressado em troca de um salário gordo, tem gente… Tem gente. Gente tem todas as opções do mundo. Nós optamos por correr atrás do que a gente quer. O Igor também. E por causa dele e de tantos outros que tiveram um destino assim, é que nós devemos bancar nossas escolhas. Eu escolhi botar as perninhas para pedalar há pouco mais de dois anos atrás, e eu banco. E toda vez que um Igor morre, eu tenho mais vontade de continuar. Viver é preciso. Eu não posso deixar de viver por causa do risco – caso contrário, os próximos jovens que sentirem vontade de pedalar depois de mim, terão um caminho maior para percorrer e tantas dificuldades quanto eu para buscar seus sonhos. É para que os próximos jovens que quiserem treinar com suas bikes, sejam livres para fazê-lo em segurança, que quem ficou para contar a história deve permanecer firme e não desistir. Não só por quem treina, mas por quem usa a bike como meio de transporte. Principalmente por esses.

Não quer dizer que a gente não se assusta. Não quer dizer que a gente não tem medo. Mas se é para ir, que a gente vá com medo mesmo. E com a garantia de que não estamos fazendo só por nós, mas também por todos aqueles que precisam buscar na gente a força para seguir seus caminhos.

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Em tempo: foi para o Igor que, brincando, eu prometi que ia fazer um Audax. Nem era amiga próxima dele, mas já o via com uma frequência que tornava todo o encontro no bar, uma pequena cobrança. Claro, uma cobrança para saber se eu estava treinando para fazer esse desafio que ele, com 18 anos, já tinha feito inúmeras vezes. Isso que eu vou fazer o desafio de 100 ou 200km – o Igor fez o de 600km. Duas vezes.
Então, a missão é fazer o Audax. Vou ficar ligada na agenda, e vamo que vamo. A vida continua, e nós temos que cumprir nossas promessas.

 

 

uma nota das coisas (in)úteis que aprendi

Você se vê adolescente, decorando mil modos de lembrar como funciona todas as nomenclaturas da biologia, para poder ter uma pontuação decente no vestibular – e o mesmo serve para química. Um ano depois, você não sabe nem o que é toxoplasmose. No ano seguinte você está lá estudando php como se não houvesse amanhã, para esquecer tudo dois anos depois. E na sequência fazendo listas de exercícios de cálculo com afinco e suor, para depois ficar usando calculadora para tudo.
De repente um dia você acorda e percebe que ganha a vida escrevendo. Que em menos de um ano você manja – ou acha que manja – tudo de comunicação. Daí você está lá fazendo aula de roteiro no dia seguinte, escrevendo histórias de filmes que – veja bem – tem real possibilidade de serem filmados.

O que será que eu sei de verdade?
Da vida, só sei que sempre guardarei na memória como se faz: um bom café, uma cama quentinha, uma amizade duradoura, e como se ama alguém.

 

O resto, é efêmero.

aquele sobre ser contra o aumento da passagem de ônibus e tudo o mais

- Me vê 5 águas sem gás, por favor.
- Sim… 15 reais…
- Aqui, no débito. Obrigada.


 Trajeto lacrimogênio

Sai do Ibotirama com a sacolinha na mão, caminhando calmamente. Estava na esquina da rua Augusta com a rua Fernando de Albuquerque, que fica na frente do Vitrine, o bar que dizem ser dos skinheads (embora eu nunca visto um lá dentro). Quinta, oito da noite. Fui subindo em direção à Bela Cintra, para encontrar os amigos que estavam por lá. Os estabelecimentos fechados, poucas pessoas na rua, todo mundo falando meio baixo, e a maioria parada na porta dos prédios, meio que dentro e meio que fora, como se estivessem aguardando um momento para entrar rápido para a segurança das suas casas ou escritórios. Cruzei a Haddock Lobo e continuei andando. Encontrei um punhado de pessoas gritando “sem violência”, na frente de um posto de gasolina. Fiquei aliviada, a rua não estava mais deserta.
BUM. Ecoou o primeiro estouro que escutei perto o suficiente para fazer meu coração disparar. Todo mundo começou a correr em direção a Augusta. Olhei para os dois lados. Estava cercada. De cada lado, na Bela Cintra, vinha um pequeno pelotão de polícia, de escudo, jogando bombas barulhentas e muito gás. Não tive escolha, desci para a Augusta de novo, correndo como se fosse desabar lá embaixo no Vitrine.
Dobrei a esquina e comecei a descer em direção ao Centro, tentando guardar as cinco garrafas de água na minha bolsa. De repente tropeço num grupo de pessoas correndo pelo lado contrário. Eles me avisaram: o Choque tá subindo a Augusta, corre para cima. Bom, não tinha o que fazer. Corri uma quadra e meia para cima, e aconteceu a mesma coisa. Me choquei com pessoas correndo pelo lado contrário: corre para baixo porque tá rolando bala de borracha de polícia vindo da Paulista.
Olhei para trás, a rua Frei Caneca, só vi fumaça, e senti cheiro de bomba. Olhei para frente e disparei em direção à Haddock Lobo. Cheguei lá com mais um grupo de umas quinze pessoas. Quando percebemos, estávamos correndo novamente, porque um dos lados da rua também estava com um pelotãozinho, que vinha estourando balas de borracha para qualquer lado.
As primeiras lágrimas começaram a cair dos meus olhos. Não, não era medo. Não era revolta. Era gás. E eu comecei a ficar tonta.
Não sei como, consegui correr sem parar até a Consolação. Cheguei lá e notei que estava, finalmente, no olho da multidão. Não tinha encontrado meus amigos, mas não me senti só por nenhum segundo. Mas foram só três minutos de glória. Em seguida, notei que, além de estar com centenas (milhares?) de pessoas, eu estava encurralada de novo. E nem o fogo que o pessoal ateou no lixo para fazer a polícia se afastar foi suficiente. Não tinha para onde correr na avenida Consolação.
Na falta do que fazer, sentamos no chão. Jogamos as mãos para o alto, olhamos para a polícia, e dissemos: sem violência.
Eles simplesmente jogaram bombas de gás na gente.

Esquina da Consolação

Exatamente onde ateamos fogo para atrasar a ação da policia, sentamos no chão, pedimos ‘sem violência’ e levamos bombas de gás lacrimogênio. Foto: Futura Press

 

Horas antes, no trabalho, era de tarde – a tranquilidade da zona oeste do centro estendido. Eu estava numa reunião, e embora estivesse falando, falando, e falando, mordia meus dedos o tempo todo. Minha inquietação não era pelos números que eu estava apresentando ali naquele pdf. Era a ansiedade pelas mensagens no Whatsapp, que não paravam de chegar uma atrás da outra no celular, do meu grupo de amigos que estavam no centro de São Paulo – no que seria um marco, e uma história que eu vou contar para os meus filhos daqui umas décadas, provavelmente nos mesmos jantares de família em que eu vou contar sobre todas as vezes que corri da polícia nesses vinte e três anos de vida. Bem, talvez meus filhos nunca precisem ir em jantares chatos de família. Talvez eu nem tenha filhos, vá lá. Mas o que eu vivi hoje mudou a vida de muita gente que estava lá junto – só não digo que mudou a minha porque o vermelho do lado esquerdo gauche corre em mim desde muito pequena. Vá lá, menina, ser gauche na vida. Quando falam isso, sempre acho que estão falando para mim.
Bom, bateu 19h, fumei um cigarro e assim que desligaram o monitor onde estava passando as imagens da Globo News, com aquela multidão pacífica levando bomba de gás lacrimogênio na cara, eu juntei minhas coisas e parti. Deixei a bike lá, e fui caminhando pela Rebouças, pensando naqueles R$ 3,20 da passagem de ônibus. Na inflação. No meu aluguel. No meu salário. Na bicicleta que eu uso todos os dias para ir para o trabalho. Pensei na minha cidade natal, Porto Alegre. Duvidei da minha identidade e da minha paulistânia.
Será que aquela causa era minha?
Parei.
Pensei.
Murchei.
Inflei.
A causa era minha. Era sim. Tão minha quanto de qualquer outra pessoa. Desde o cara que nasceu em São Paulo, na perifa, e pega 3 conduções por dia para trabalhar há vinte anos, até o cara que chegou do nordeste ontem.
Uma amiga comentou no Facebook que quando começam a machucar jornalistas, prendê-los, atirar neles, é sinal que algo muito grande está acontecendo. Bom, eu já não tenho dúvidas de que essa história toda já está muito além do aumento do preço da passagem. Acabamos de personificar o Estado, e de repente todo mundo entendeu que se a gente arredar o pé, as coisas continuam como os outros decidem pela gente que está bom. E não está, não.

Policiais apreendendo VINAGRE, que os manifestantes iriam usar para se proteger das bombas de gás. Foto: Futura Press

Policiais apreendendo VINAGRE, que os manifestantes iriam usar para se proteger das bombas de gás. Foto: Futura Press

Por isso, vamos ocupar São Paulo. Vamos continuar ocupando o Rio. Floripa. Goiânia. Porto Alegre.
Não, não estou convocando ou re-convocando pessoas a protestarem contra passagem de ônibus. Mas que acreditem nos problemas que querem resolver no lugar que vivem, e que não olhem só para o próprio umbigo achando que as coisas se resolvem pela polícia, ou que elas nunca vão se resolver. Nunca vi revolução sem violência.
É triste? É. Mas ativismo de sofá cumpre a função da disseminação da informação muito muito bem. Porém, nós temos que ser a informação também. Nunca sei se foi o Sérgio Amadeu ou o Dpadua quem disse, mas nessas horas vem à cabeça: Tecnologia é mato, o importante são as pessoas.

Foto: Futura Press.

Foto: Futura Press.

São Paulo é nossa, e nós somos de São Paulo.
O Brasil é nossa casa, quem manda aqui é a gente.

aquele sobre as meias perdidas

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Comigo sempre rolou um problema crítico sobre meias. Eu amo meias 7/8 e 3/4, tenho uma coleção. Mas sempre esqueço de comprar as meias que a gente mais usa no dia a dia: as meias soquete, de algodão, simplinhas. Branquinhas, pretas, cinza… Básicas. É muito frequente eu andar por aí com uma meia dessas de cada par, porque vivo perdendo elas por aí e não faço idéia de como. Esse lance de perder também acontece com meus sutiãs, mas isso é assunto para outro post.
Então, desde pequena eu tenho a sensação constante de precisar de meias. É algo que já faz parte de mim, como se fosse uma daquelas manias que duram a vida inteira, tipo roer unhas.

A medida que eu fui crescendo, peguei um hábito estranho. Eu ia na gaveta de meias da minha mãe, ou do meu pai, e pegava pares de meias de algodão deles – principalmente quando eu não achava nenhuma minha na gaveta, ou no cesto de roupas sujas. Quando ia viajar, sempre dava uma passada no quarto da minha irmã e fazia o mesmo. Era tão simples ir numa loja e comprar meias, mas eu sempre esquecia disso. Às vezes passava  a tarde inteira comprando roupas no shopping e não levava um par de meias de algodão, no máximo eu comprava as minhas boas e velhas 7/8, dos mais variados tons de preto ou roxo. Não era por mal, era esquecimento mesmo. Quando fazia aniversário e alguém me perguntava o que eu queria ganhar, eu sempre dizia “meias de algodão simples, por favor”, e todo mundo achava que era brincadeira. Não, não era. E eu nunca ganhei meias de aniversário.

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Adolescente, eu comecei a namorar cedo. Um namoradinho atrás do outro. E ia pegando as meias deles também. Esses dias até achei um pé de uma meia velha, de futebol, de um namorado que tive há uns nove anos atrás. Com o tempo, nem pegava mais as meias dos meus pais, só dos namorados. Alguns me davam meias novas de presente. Teve um ficante que me trouxe meias de algodão de Paris, os únicos dois pares de meia que eu consegui manter a vida inteira por mais de alguns meses (esses são campeões, devem ter uns três anos já). Mas só porque são muito grossos e esquentam meus pés no inverno com muita eficiência. O problema das meias é tão forte que do meu último rompimento, a única coisa que não consegui me livrar foram as meias do ex, porque se não eu corria o risco de ficar sem meias. E lá estão elas, meio perdidas, já sem os pares, e eu não consegui jogar fora. Já me vi usando meias do meu roomatte, das minhas amigas, mas principalmente, do meu ex. De todos os ex.
Com o último rompimento de relacionamento, eu passei por algum tipo de transformação que me trouxe algumas epifanias sobre a vida, o universo e tudo o mais. Algumas coisas perderam totalmente o sentido, outras ganharam mais significado, e outras simplesmente pararam de existir. O caso das meias foi inesperadamente um deles. Ao mesmo tempo em que eu tomava vergonha na cara e passava a me vestir melhor, parar de choramingar pelos cantos, essas coisas, eu também comecei a comprar meias. E agora, quase toda a semana eu compro mais ou menos um ou dois pares de meias de algodão novas.
Notei também que eu parei de ser tão dependente das aprovações dos meus pais, e da afeição da minha irmã. Parei de me preocupar tanto com o que os caras com quem eu me relaciono pensam de mim, e claramente me tornei uma pessoa mais carinhosa, e menos exigente. De certa forma, as meias sintentizavam isso. Sempre ficava pagando de independente, desapegada, mas no fundo, eu precisava das meias de todo mundo que estava próximo de mim e que eu gostava.
Hoje já não estou precisando das meias de ninguém, compro as minhas, sozinha, sem ninguém me lembrar.
E os pés estão quentinhos sempre, pela primeira vez.

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sublimes romances de esquina

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Li um artigo muito bom que discorre sobre o que é ou o que representa o eterno e o sublime na filosofia (do último śeculo), ao mesmo tempo que discutia com um amigo sobre a mais nova bandeira dos jovens de 20/30 anos: a cultura da obrigatoriedade em sermos felizes sozinhos. Fiquei um pouco na defensiva enquanto os argumentos insossos do Sartre eram discutidos através de citações que nossos amigos postavam em seus murais do Facebook. Afinal, qual é o problema em se sentir mal por estar só?
Nós vemos o tempo inteiro nos filmes, nas músicas, histórias de felicidade compartilhada entre pessoas. Dificilmente aprendemos desde novos a como agir quando estamos completamente sós na vida. E com o śeculo XXI essa idéia de intensificou, e passou a ser vendida para mentes jovens com o mesmo entusiasmo que enfiam o comércio de pequenas refeições congeladas para solteiros que moram sozinhos. E as pessoas se botam na obrigação de mostrarem que estão satisfeitas consigo mesmas o tempo inteiro; fotos de refeições solitárias no Instagram, de estantes de livros solitárias, uma conta no Netflix, competição online para ver quem anda correndo mais no Nike+. Solidão compartilhada. É uma cobrança excessiva.

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Eu refleti muito sobre minha facilidade incrível de sempre me virar bem sozinha e nunca me sentir mal com isso, ao  mesmo tempo que sempre vivo uma leve pressão social para que isso , que normalmente flui naturalmente, fosse algo que simbolizasse um sucesso extremo. E não é assim. É apenas uma forma de viver. E eu nunca sei bem a diferença entre o só que eles falam tanto por aí: seria o só de morar em um lugar sem mais ninguém ou o só de solteiro, sem companheiro ou companheira?

Sobre essa última sentença, eu vim pensando desde ontem. Pensando na possibilidade de voltar a esse patamar. Mas não é como antes, quanod eu precisei ficar e estar solteira por uns anos. Eu já aprendi o que se deve aprender com isso, é essa a sensaçào. E sabe como eu entendi isso? Porque eu notei que não me importaria de estar nesse status novamente. É normal. É natural. A gente nasce e morre sozinho. Mesmo se você tiver um irmão gêmeo, os dois não vão nascer no mesmo minuto.

Muitas pessoas vivem sós e desesperadas em encontrar alguém para dividir os seus dias, a sua vida. É normal, não há nada de errado nisso. As pessoas gostam de companhia.

A vida não nos oferece nada, não nos dá garantia
alguma e não nos pergunta por preferências. O escritor Alejandro Jodorowsky aconselha: “Não busques,permite que te encontrem.
Não peças para ser amado, ame sem limites. Se queres vencer, não lute consigo mesmo.
Padilha, Thais.-

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Eu já passei por tantas desilusões amorosas que já não sei nem contar mais. Minto, até sei. Posso elencar e classificar conforme as intensidades, e posso afirmar que nada se parece com o que eu vivi da última vez. Tão recente. Achei que aquilo que me assustaria seria o medo de estar sozinha novamente, e ter que encarar aquela expectativa constante de encontrar um alguém que encaixe, e que faça tudo ganhar sentido novamente, de súbito. Isso existe, sim. E pode acontecer mais de uma vez. E na vida de uma pessoa solitária você pode ter inúmeras recordacões de inúmeras situações de companhia. Mas o medo que me assolou dessa vez foi a perda. Eu tenho certeza absoluta, tanto quanto que chove em São Paulo o mês de fevereiro inteiro, que mais cedo ou mais tarde eu posso encontrar mais uma ou duas pessoas fantásticas ao longo da vida que vão marcar minha alma como outras já fizeram de um modo tão divino.
O problema dessa vez foi lidar com o eterno e não o sublime que determinou todas as outras situações. Como o artigo que li hoje explica, sublime são as primaveras que enxergamos entre as gotas de orvalho de um rigoroso inverno. O sublime foi a fatia de bolo de chocolate que eu comi hoje, durante um dia de melancolia e tristeza extrema. A única tristeza que foi pior do que a de hoje e de ontem, foram as tristezas que senti quando sentia cheiro de cravo nos enterros de pessoas que amei muito. O eterno é meu sentimento de amor e devoção por todos aqueles que me fazem bem. Isso nunca mudou, e eu consigo ver pessoas indo e vindo, buscando e retornando, esse sentimento de amor à vida que é inabalável dentro de mim.

Nunca procurei amores. Eles sempre vieram ao meu encontro como um baque surdo, um encontrão. Porém, eles nunca aconteceram sozinhos. Eu os via. As vezes eram platônicos e aconteciam da primeira vez que eu olhava a pessoa, e não importava quem ela fosse, sua face me contava sua história e informações suficientes para que eu soubesse que ali eu encontraria um destino e um porto seguro. Sempre breve, sempre sublime. Outra vezes o amor aconteceu no dia a dia. Uma palavra, o jeito de passar a mão do pescoço, a voz, a forma como pronunciava uma certa palavra. Me apaixonei tantas vezes. Nem todas elas precisavam ter acontecido. Nem mesmo metade delas deve ter ido parar na alcova. Eu, na situação de pessoa solitária e eterna em meu amor pelas coisas simples e breves, cultivei romances de dez segundos em livrarias, de cinco minutos em cafés, de duas horas em festas. Com saliva, sem saliva. Romances inteiros que duraram uma cruzada de pernas. Porém, quando havia a oportunidade, nunca deixei de ir atrás de quem eu queria. Nunca. E todas as vezes deram certo. Lembro de ter tido fogo negado apenas uma vez na vida, e com uma explicação muito bem colocada e delicada. Muitas vezes questionaram minha fidelidade a namorados tradicionais, e elas existiram, sim. Sempre cumpri meus acordos de afeto e carinho. Isso nunca me impediu de continuar tendo inúmeros amores de esquina. Um fogo rápido, que apaga como um fósforo riscado úmido, que não faz a fogueira que arde ao lado parar de brilhar. E morre ali. Não fere ninguém, não aborrece, não dura mais do que uma simples… sublimação.

Eu queria escrever toda a dor da perda que tenho sentido, sem saber se ela vai ocorrer ou não. Queria que as pessoas fossem simples como eu. Mas isso é pretensão. Sartre jamais aprovaria. Seja feliz só.
Eu sei, eu já sou.

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O que aconteceu dessa vez foi a realização de quem não importa a dor que eu sinta agora e sim depois. Acho que o Bukowski sabia muito sobre isso, apesar de toda a sujeira imnente do amor que ele denunciava, mas nunca desistia de se apaixonar. Pela mesma pessoa, por outras. O amor em geral deve ser uma porção de primaveras desabrochadas no meio do frio da geada da vida.

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aquele sobre um ano superado

Existe um Tumblr chamado Advice For All My Children, cujas imagens eu adoro usar por aqui. Muitas delas realmente dizem coisas que eu gostaria de falar para minhas próprias ‘children’; sejam elas meus futuros filhos mesmo, ou os meus próprios amigos. Tem uma imagem que eu vi por lá esses dias, que diz muito sobre a minha política de lidar com problemas em 2012.

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O problema é que ao longo do ano eu descobri que eu sou, sim, um pouquinho de todas as trevas pelos quais eu passei. Elas são minha história, e elas vão estar lá no meio das minhas rugas quando eu for mais velha.

Esse ano foi foda. Se eu pudesse enumerar tudo pelo o que eu passei, daria para provar minha certeza de que foi o ano em que a vida mais me ensinou. E no fim das contas, depois de apanhar muito, acho que venci. Dia 5 de janeiro eu escrevi um post aqui falando que a única resolução de ano novo para 2012 era sempre agradecer a todos os que me estendessem a mão. Então, acho que cumpri minha única resolução de 2012. Bingo. Até porque ajuda foi o que eu mais recebi no ano que passou, e foi a única coisa que me manteve firme. Amizade no final das contas é um bálsamo mesmo. Por isso, nunca vou deixar de acreditar nas pessoas. O mundo ainda pode ser um lugar muito belo. Acredite.
Porém, se no dia 5 de janeiro eu soubesse a metade do que aconteceria na minha vida, eu teria prometido mais coisas para 2012. Eu teria dito que eu a) não me deixaria influenciar por ingenuidade, b) não esqueceria de pedir ajuda quando precisasse, c) passaria a acreditar que vilãs de novela existem de verdade, d) entenderia que se eu não tiver vontade de viver, ninguém vai poder me ajudar, e) sempre devemos denunciar quem nos faz mal, para que não possam fazer mal a outras pessoas também, f) os amigos nos conhecem melhor do que nós mesmos, devemos escutá-los sempre.
O ano começou com um grande buraco na minha conta do banco, seguido do meu aniversário de 22 anos que sucedeu a uma crise de convivência insana que me fez sair do apartamento fantástico em que eu morava, para me amontoar em um quarto de 20m² com uma amiga, com simplesmente todas as nossas coisas – duas camas de casal, escrivaninha, guarda-roupa, malas, caixas, etc. Com isso veio a separação dos meus gatos, contra minha vontade – mas movida pela força da situação -, e um contínuo desarranjo da minha vida profissional. Por uma série de fatores ridículos, eu me deixei levar, e de repente eu não tinha mais freelas, não dava mais aula, ficava em casa em uma inércia infindável. Meses depois eu percebi que tudo foi estrategica e diplomaticamente arquitetado por alguém bem maquiavélico; mas no momento eu não vi, eu não conseguia acreditar que qualquer um pudesse estar provocando tudo aquilo. Não que eu não acreditasse na maldade das pessoas, mas porque eu achava que ninguém se daria ao trabalho de estragar tanto a minha vida daquele jeito – porque olha, deve ter dado trabalho sim -, sendo que eu nunca fiz mal a ninguém. Bom, março foi o pior mês da minha vida. Parece que durou cinco anos. Em contrapartida, eu também vivi. E muito. À despeito de todas as desgraças que ocorriam no lar, fora dela a vida foi vivida intensamente – em todos os sentidos. Beijei muito, namorei, conheci pessoas ímpares, pedalei muito, escrevi, comecei projetos fantásticos. Foi nesse mês que eu participei da minha primeira bicicletada. Foi demais. Depois abril entrou como um bálsamo. Consegui me mudar para um lugar pequeno, terno, acolhedor, longe, mas incrivelmente meu. Calmo. Mesmo que pertencesse a uma amiga, eu sentia que era muito mais meu – nosso – do que qualquer outro lugar onde eu havia morado antes. Foi aí que comecei a entender a verdadeira importância dos amigos de verdade nos momentos que a gente precisa. Os meus gatos voltaram para o meu colo, e aí eu devo agradecer às duas anjinhas que cuidaram deles enquanto eu precisei, porque sem elas eu não sei o que faria. Uma delas ainda por cima tinha alergia, e passou dois meses inteiros com dois peludos no apartamento. Nem dá para encontrar palavras para dizer o quanto eu fui grata. Outras pessoas me ajudaram financeiramente, quando eu achava que esse tipo de ajuda era too much, e ninguém deveria me ajudar nesse sentido. Mas ajudaram. E eu não passei fome.
Foram tantas ajudas nesse período negro. Suporte emocional do namorado da época, que me ouvia incansavelmente e me dava o ombro para chorar quando eu precisava (mesmo que a relação não tenha ido para frente, esse sentimento de agradecimento eterno ficou), a ajuda financeira das amigas distantes, o suporte das amigas próximas, o gás que todo mundo me deu para continuar indo em frente…
Minha amiga que sofreu as dores de março comigo, escreveu hoje que o ano dela se resume a uma palavra: ousadia. É, acho que todos nós fomos ousados esse ano e sobrevivemos. Aos trancos e barrancos. Erramos demais. Acertamos de menos. Mas quando acertamos, foi para valer. Bem, acho que se eu fosse descrever o meu ano em uma palavra seria: superação.  Superar minhas covardias e enfrentar um medo diferente todos os dias. Nunca deixei de ter medo, mas encará-lo é incrível. Superar, então. Nossa.
Eu superei. Eu venci.

E escrevi tanto as palavras ‘amiga’ e ‘amigas’ nesse texto, que cheguei a me emocionar. Logo eu, que até dois anos atrás não tinha muitas amigas mulheres e escrevia tanto nesse blog sobre meus amigos homens e minha tendência em ser amiga deles, e só deles. Olhem como o mundo dá voltas. Hoje eu tenho dezenas de amigas. Mulheres. Incríveis. Algumas não nasceram mulheres, tornaram-se; outras sabiam que eram mulheres desde a mais tenra infância, mesmo que todos lhe dissessem que não; umas tem filhos, sendo mães muito diferentes daquelas que eu conhecia, e são o retrato da mãe que eu quero ser um dia; outras sabem que não querem ter filhos nunca e não se deixam abater pelos jantares de família e as perguntas inconvenientes. Mulheres que matam um leão por dia. Amigas. Minha mãe dizia que não existia amizade entre mulheres. Hoje eu ensino minha mãe que existe, sim. Não acredite no que os outros te falam só porque são mais velhos que você: a experiência de vida deles, é deles. A sua é a sua.

Em 2012 eu superei. Eu beijei. Eu me apaixonei de novo ao longo do ano, e continuo apaixonada como se fosse sempre o primeiro dia, o primeiro beijo. Eu mudei de carreira, e subitamente me apaixonei pelo trabalho. Eu conheci pessoas novas todos os meses, e todas elas são fantásticas. Eu abracei. Eu briguei. Eu chorei. Eu gritei. Eu amei.

Resolução para 2013?

Me manter sempre apaixonada. Pelo trabalho, pelas pessoas, pela família paulista, pela família gaúcha, pelos gatos. Pela vida.